Mais uma guerra

As pessoas têm me perguntado o que eu acho da operação de Israel na Faixa de Gaza. It’s all about politics, tenho dito. E é mesmo. Se Israel não estivesse em campanha política, se o ministro da Defesa não fosse o candidato do partido menos apoiado nas pesquisas, se a ministra de Exteriores não fosse a candidata do Kadima que está se distanciando do Likud nas intenções de voto, a operação não teria sido aprovada.

Por essas e outras, as incursões – por enquanto apenas aéreas – de Israel não são nenhuma surpresa, não tomam ninguém de surpresa. Depois de oito anos de ataques de mísseis Qassam contra Sderot e cidades vizinhas, os políticos não agüentaram mais as pressões internas para revidar. Nada como um momento de decisões e indecisões políticas para dar ao povo o que o povo quer. E, nesse caso, uma pancada forte no Hamas era esperada.

É verdade, contudo, que o ataque foi exagerado. Matar 300 pessoas em três dias em ataques aéreos com a intenção de desmantelar a infra-estrutura terrorista do grupo palestino é perder a razão. Quando eu brigava na escola e resolvia acertar as questões na porrada, ainda que tivesse a razão, ia logo perdendo o apoio dos mais velhos. Israel já perdeu o apoio da comunidade internacional faz tempo, mas parece que não se preocupa muito com isso.

Essa guerra, chamem como quiserem, não vai durar muito. Até o final da semana já vai ter acabado, com resultados provavelmente desastrosos do ponto de vista humanitário e talvez com êxitos do ponto de vista militar e de cumprimento dos objetivos de Israel. O soldado Gilad Shalit, que está em cativeiro na Faixa de Gaza há dois anos e meio, certamente não vai reaparecer até o final da operação. Mas o Hamas vai ficar enfraquecido.

O que dá arrepios é a sensação de que Israel pode estar caminhando pelos mesmos trajetos tortos do verão de 2006, quando Shalit foi capturado no sul e uma outra frente de batalha foi inaugurada no norte, contra o Hizballah. Se o grupo xiita declarar guerra contra Israel – ou se Israel aproveitar que está parecendo forte militarmente para atacar o Hizballah – as coisas vão ficar muito mais feias. Aí, vamos ver mais uma guerra.

Enquanto isso, ninguém pensa duas vezes ao dizer que a terceira intifada já começou por aqui. Como resposta aos ataques de Israel contra a Faixa de Gaza, manifestações pesadas explodiram em toda cidade com população relativamente grande de árabes, como Um el-Fahm, Haifa, Nazaré e Jerusalém, além de vilas árabes palestinas. Um barril de pólvora perto do qual Israel não deveria acender um cigarro.

Uma escada aos domingos

Em Chefchaouen

Foto: Solly Boussidan

A escada de hoje é foto de Solly Boussidan, feita na visita ao Marrocos. A escada fica em Chefchaouen, conhecida como “Cidade Azul” ou “Cidade das Escadas”, como conta o Solly. E ele vai além: “Chefchaouen é também o centro do kif (hashish) no Marrocos, droga produzida nas montanhas ao redor da cidade”. Como ele conta, a cidade se tornou uma fonte de dores de cabeça para a Espanha, localizada a menos de 200 quilômetros de distância de lá.

UMA NOTA AOS LEITORES: embora sejamos três, como vocês notaram o número de posts está reduzido. A explicação é simples: estamos nos organizando para colocar o blog em dia e trazer por aqui posts interessantes sobre os lugares onde vivemos. A verdade é que o fato de estarmos espalhados complica um pouco a comunicação entre nós. Mas em breve o CARTEIRO SEM POETA volta com tudo, com posts e imagens bacanas. Agradecemos a paciência de vocês. 

Karina, Solly, Gabriel

Uma escada aos domingos

White Stairs, Red Wall, Frankfurt

Na próxima quarta-feira, dia 10, embarco para Frankfurt. De lá, vôo para São Paulo, onde fico durante apenas dez dias. A escada é na cidade alemã.

Marrocos – Cena 1: Introdução

Vista da Europa a partir do Marrocos

A Europa vista do Marrocos

Direto de Tânger, Marrocos.

BEM-VINDO À ÁFRICA

Engraçado. Quando pensava em vir ao Marrocos eu romantizava um pouco a idéia de que tinha que atravessar de barco da Europa para a África para poder realmente sentir o peso da jornada, de mudar de continente. Talvez isso se devesse a certa frustração por não ter cruzado da Ásia a África por terra alguns anos antes, através do Sinai, no Egito.

A princípio, confesso, fiquei um pouco decepcionado, pois ao chegar a Tarifa, no sul da Espanha, não se podia avistar a África – o nome que ressoa profundo no imaginário – do outro lado do Estreito de Gibraltar, onde o oceano vira mar, na confluência do Atlântico e do Mediterrâneo.

Durante meus primeiros momentos em Tânger – cidade portuária outrora internacionalizada entre França, Espanha, Inglaterra, Bélgica, Holanda, Itália, Portugal e EUA (e que só foi reunificada com o resto do Marrocos meses após a independência do país em 1956, mas permaneceu como interzona até meados dos anos 60) –, precisava ficar repetindo a mim mesmo que “agora estou na África”.

Como se isso fosse me ajudar a interiorizar a enormidade do simples e desinteressante cruzamento de balsa entre a Espanha e meu mais novo continente. Não ajudou. A esplanada ao lado do porto é uma cidade portuária como outra qualquer. Todo mundo fala francês, espanhol e árabe e, apesar da sujeira nas ruas denotar um país realmente subdesenvolvido, nada me indicava uma diferença brutal que gritasse África ou pelo menos Oriente Médio à primeira vista.

Após rodar um pouco, tomei um táxi para a rua onde supostamente deveria estar o albergue local, mas onde sabia que também havia um hotel bem recomendado.

O albergue estava fechado há mais de um ano. O hotel cobrava um preço um pouco mais salgado do que estava esperando pagar. E foi neste momento que as coisas começaram a tomar um rumo inesperado e que me deram um choque de realidade.

Um senhor que se apresentou como sendo da região das montanhas do Rif viu que eu estava olhando o hotel e se ofereceu para me mostrar uma pensão, a qual, segundo ele, tinha uma diária custando uma fração do preço praticado aqui.

A pensão ficava a poucos metros de onde estávamos e tinha uma diária bem mais em conta. Só que alguma coisa não me deixou satisfeito com o local. Coisa de energia mesmo, sem explicação. Agradeci e decidi voltar ao hotel. Na saída da pensão, eis que me deparo com uma foto do enorme domo dourado de Jerusalém.

BEM-VINDO AO ORIENTE MÉDIO

Dando uma de desentendido, fui logo perguntando:

- Que linda essa mesquita. É aqui no Marrocos?

A resposta veio seca e não menos incisiva do que se eu estivesse na Síria:

- Não. Fica em “Phalastin”.

- Nossa! “Phalastin”? Onde é isso mesmo?

- Ah, você sabe… Lá onde tem os “phalestinayin”… Eles estão lutando contra…

- Ah! Sim! Os palestinos! Eles estão lutando com os israelenses… Fica lá então? Perto de Israel?

- Isra… (um monte de grunhidos em árabe que interpretei como sendo algo não muito amável em relação a Israel).

- Certo . E qual é mesmo o nome da cidade onde fica essa mesquita linda, meu senhor?

- Não é aqui no Marrocos. Você tem que ir até o Egito; o Cairo. Fica por lá.

- Fica no Cairo???

- É. Mas tem Meccah não muito longe, que é mais bonita ainda.

- OK. No Cairo. Merci beaucoup. Shukran b’feyz.

Voltei ao hotel e depois de devidamente instalado e de banho tomado, saí para jantar. Aí sim finalmente vi um quê de Magreb, de África. Mercados e medinas, chá de menta, cous-cous, pastéis de amêndoas e encantadores de cobra. Pessoas simples e muita pobreza na rua. Sorrisos fáceis. Cordialidade. Ouvi umas três vezes um bem-vindo ao Marrocos de gente com quem troquei duas ou três palavras na rua.

Da varanda do hotel, vendo as águas do Mediterrâneo e sabendo que ali do outro lado, a só 14 quilômetros fica a Europa, refleti sobre os acontecimentos do dia.

Tânger, na confluência de três mundos, terra-santa da espionagem internacional nos tempos da Guerra Fria, é uma cidade vira-lata: com vista para a Europa, busca no turismo e no contrabando sua fonte de subsistência. Vira as costas para a miséria da África, que mesmo assim insiste em invadir a cidade na sujeira das ruas, nos odores fortes, na sensação de que o selvagem e o proibido estão à espreita.

No entanto, o espírito da cidade não está nem aqui, nem lá.

Perdida na geografia e na história, o grito dos muezzin declara alto e nítido: nossa alma está acolá… a Leste… no Oriente Médio.

Minha primeira noite… na África.

Uma escada aos domingos

Stairs at the Jewish Museum - Harbin

Essa escada fica no museu judaico de Harbin, na China. Eu não sabia que existe um museu judaico em Harbin. Na verdade, nem sabia que existe essa cidade na China.

Passaporte: este documento tão problemático!

Diretamente de Lisboa, Portugal.

Passaporte Israelense

Passaporte Israelense

Há pouco mais de um mês, na onda das festividades nacionais na Hungria, República Tcheca e Coréia do Sul, entre outros, por conta da confirmação dos americanos de que esses países em breve integrarão o seletíssimo grupo cujos cidadãos não necessitam de visto de turismo ou negócios por até três meses em visitas realizadas aos EUA, o jornal israelense Ha’aretz publicou um artigo sobre a possível inclusão de Israel nesse grupo.

Muitos dos leitores talvez estranhem ao saber que israelenses, como brasileiros, precisam de visto para entrar nos EUA – até mesmo para uma simples conexão de vôos. Vá lá que a burocracia enfrentada pelos israelenses é muito menor que a montanha de papéis que os brasileiros têm de apresentar para conseguir um visto.

Além disso, a quantidade de vistos negados a cidadãos israelenses é praticamente desconsiderável se comparada aos níveis brasileiros. Sem contar que os israelenses recebem visto para dez anos (brasileiros recebem para cinco anos apenas – mas a culpa disso é do governo brasileiro, o que é uma outra história…) e recebem o visto de negócios automaticamente junto com o de turismo pelo mesmo prazo (no Brasil são vistos emitidos separadamente e brasileiros têm de pagar além das taxas normais, um extra de US$60).

Mas afinal, se os EUA e Israel são aliados de primeira categoria, há uma quantidade pequena de vistos negados e o número de israelenses que abusam de seus vistos para ficar ilegalmente nos EUA é mínimo, por que então Israel ainda não se juntou aos 27 países que atualmente participam do Programa de Isenção de Vistos dos EUA?

A resposta é quase cômica. Principalmente por causa da pouca segurança do passaporte israelense. Isso mesmo. Para todos aqueles que imaginam que tudo que tenha a ver com segurança em Israel seja prioritário, aí vai uma bomba: os documentos de identificação israelenses estão entre os mais fáceis de falsificar.

O Brasil demorou anos para finalmente atualizar seu passaporte e inserir o imprescindível código de leitura mecânica da Organização de Aviação Civil Internacional (OACI, agência da ONU) junto com outros elementos de segurança no novo modelo, adotado em 2007.

Se por um lado, com anos de atraso, o Brasil migrou para um modelo novo de passaporte que já era obsoleto antes mesmo de ser adotado (a maioria dos países está implantando uma nova geração com um chip integrado que permite a leitura sem contato e a confirmação biométrica do portador do documento), Israel, que já possuía o bendito código mecânico da OACI em seus documentos há pelo menos 15 anos, ainda emite documentos com a foto do portador colada e, para protegê-la, um plástico bem simples!

Israel não se preocupa tanto com o nível de segurança de seus documentos pois cidadãos israelenses e residentes possuem um número mágico de teudat zehut (certificado de identidade, em hebraico). Esse número rege a vida e a relação do cidadão com o Estado e, à hora da entrada ou saída do país, faz-se o controle por meio dele.

Israel até possui um cartão eletrônico (e voluntário) que inclui as impressões digitais e da palma da mão do cidadão e que pode ser utilizado para se entrar no país sem a necessidade de passar pelo controle regular da imigração, mas aí também, o registro é todo feito através do número de identidade.

Se para o controle israelense os documentos atuais atendem às necessidades de segurança nacional, o mesmo não pode ser dito de governos estrangeiros, que não possuem acesso à base de dados israelense. A União Européia já avisou: ou Israel faz uma plástica no seu passaporte, ou ele vai passar a não ser aceito a partir de 2010.

Enfim, com o anúncio de uma nova lista de países dispensados do visto americano, o Ministro do Interior de Israel, Meir She’etrit, aproveitou uma visita aos EUA para discutir a situação com seus pares americanos. A idéia foi muito bem acolhida pelo governo dos dois países, mas os EUA já sinalizaram de antemão a questão do passaporte israelense.

A resposta positiva dos americanos aparentemente motivou o Ministério do Interior e o Parlamento Israelense a fazer o que já deviam ter feito há muito tempo: aprovar uma legislação autorizando uma mudança radical na coleta de informações biométricas e no processo de emissão e modelos de documentos emitidos por Israel. As autoridades estão prometendo o novo sistema já para 2009. É esperar e ver.

Em tempo, o Brasil, infelizmente não é nem cogitado como integrante em potencial da lista de países dispensados de visto para entrar nos EUA. A culpa é também em grande parte do Brasil: a legislação americana exige que os países interessados em firmar um acordo bilateral devem fazer uma solicitação prévia para análise por parte dos órgãos americanos responsáveis e o Ministério das Relações Exteriores do Brasil entende que isenção de visto é uma coisa que os países acordam ou não; sem esta bobagem toda de solicitação prévia.

Uma pena, pois o Brasil perde milhões em receita potencial de turismo de cidadãos americanos que não querem desembolsar US$170, em média, para tirar um visto brasileiro. Enquanto isso no Brasil, as filas nas portas do consulado americano continuam, como de costume, enormes.