Fazia meia década desde a minha última visita (forçada) a um hospital em Tel Aviv. Aliás, cinco anos atrás estive no mesmo hospital onde está uma amiga que fez uma cirurgia para perder peso e acabou tendo complicações – quem disse que logo você não pode entrar naquele 0,01% das estatísticas?
O mundo hospitalar em Israel é um caso a parte, um caos a parte. O país que está na liderança de pesquisas médicas tem, por outro lado, casos e casos de reclamações sobre o atendimento nos hospitais. Minha amiga que o diga – demorou três dias para perceberem que o intestino dela tinha sido perfurado na cirurgia que só deveria ajudá-la a reduzir o peso.
Lembro-me de quando estive internado, em 2003, por uma noite, no Ichilov, hospital de ponta, elefante branco no meio de Tel Aviv. Eu, turista (e sem seguro – assim que aprendemos), mal falava hebraico. Nem precisava: o idioma oficial dos hospitais é o russo, com muita sorte consegue-se alguém que fale… árabe.
Mas o problema no atendimento está longe de ser relacionado ao idioma das enfermeiras e dos médicos. A questão é que os israelenses são muito práticos, também fora dos hospitais, e praticidade simplesmente não combina com tratamento de doentes. Nem de menos doentes, como a minha amiga.
Caso, aliás, que poderia sair bem mal (como ela já está fora de risco, vou contar). Minha irmã, que se forma médica no final do ano, explica: se demorasse mais para ser diagnosticada, a perfuração no intestino poderia levar a uma infecção generalizada e, em seguida, morte.
Ela está bem, contudo. Tem dores, cá e lá, mas passa bem, já.
Irritados ficamos nós, os visitantes, com a (des)atenção dos médicos e enfermeiras. Um entra-e-sai de gente no quarto dividido (os hospitais de ponta em Israel são públicos), caras de preocupação, e nenhum comentário. Existe uma lei em Israel feita para respeitar a “intimidade do paciente”. A lei é clara: nenhuma informação para quem não é da família.
Está certo que não somos família, mas é certo também que ela não tem aqui família nenhuma. Custava dar uma palavrinha explicando o que acontecia? Em vez disso, o silêncio e a grosseria de médicos e enfermeiras que cuidam de pacientes como se estivessem vendendo café em alguma rede de Tel Aviv…
E não é apenas o time médico. O segurança do hospital, em uma das minhas visitas, berrava com uma mulher para que ela abrisse uma sacola plástica na entrada. Precisei lembrá-lo de que ele estava em um hospital e que, de repente, aquela mulher tivesse um parente entre a vida e a morte. Não que isso realmente o tenha emocionado…
Há coisa de dois anos estive em uma consulta de rotina no hospital Hadassah, em Jerusalém. Tinha uma inflamação que me preocupava, e que acabou não sendo nada. Até descobrir o diagnóstico, contudo, tive momentos de stress. Primeiro, diante da minha cara de “doutora, vou morrer?”, a médica atende o celular e começa a bater papo com a amiga. Bater papo, assim, como se estivesse em casa.
Tirei o telefone dela. No duro! Como na escola, com as crianças…
Depois, com o clima pesado, a sala é invadida sem o toc-toc comum no Brasil. Uma enfermeira, que veio dar um recado qualquer. Tranquei a porta. “Enquanto o paciente sou eu, ninguém entra nessa sala”.
E assim foi. Ganhei uma boa notícia e uma inimiga. Tomara que eu não precise voltar ao hospital. Pelo menos não como doente…
* O título deste post (Больницы, доктора и больные люди) é, em russo, “hospitais, médicos e doentes”. Eu não falo russo, não. Pedi ajuda.
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Cara, como cronista vc está mandando muito bem … Me sentí doente e lúcido em Tel Aviv (rs) Mas em ficou uma dúvida: o serviço de saúde é grátis ???
Perdi uma tia pelo mesmo problema que sua amiga. Ela teve sorte de sair viva!
Eu também tive problemas no hospital em Londres. Fui atropelada numa sexta feira a noite. A ambulância chegou rápido e foi super eficiente, porem quando cheguei no hospital e estava consciente tive que esperar na fila como os outros pacientes. O único detalhe eh que os outros pacientes estavam la pois estavam bêbados (alguns estavam dormindo).
Tive que esperar 5 horas com a cabeça sangrando e morrendo de dores por todo o corpo , enquanto a enfermeira tentava achar o Jonh que havia esquecido seu nome na sala de espera.
Pelo menos foi tudo gratuito.
Típica grosseria israelense… se bem que grosseria em hospital parece ser algo mundial, pelos comentários…
E fez muito bem em tirar o telefone da fulana, que falta de noção!
Tb repito a pergunta acima: o sistema de saúde é gratuito?