A chanceler e o alemão

25mar08

Angela MerkelO assunto da semana passada aqui em Israel foi sem dúvida a visita da chanceler alemã Angela Merkel. Nem sequer a presença do provável futuro presidente dos EUA, o McCain, chamou tanto a atenção dos israelenses. Mas mais do que a visita em si, teve destaque o discurso histórico que ela fez, em alemão, na Knesset, o Parlamento israelense.

Como era de se esperar, as reações contrárias não demoraram a surgir. Ainda na semana anterior à chegada de Merkel, os deputados colocaram em votação um pedido para que ela falasse no idioma materno. Embora o pedido tenha sido aprovado, dois deputados se opuseram fortemente. Um deles disse que não aceitaria ouvir no Parlamento o idioma no qual os pais dele tinham sido mortos.

Ainda hoje, as gerações mais velhas de israelenses, muitos deles filhos ou netos de sobreviventes do Holocausto, e de alemães precisam enfiar o assunto goela abaixo. Apesar de reparar nos israelenses um quase desinteresse por tudo que tenha a ver com o extermínio de 6 milhões de judeus “outro dia”, há 63 anos, papos informais revelam sentimentos parecidos com os dos deputados que votaram contra o alemão do discurso.

Por outro lado, o “turismo do Holocausto”, como eu chamo a vinda de pessoas para estudar o assunto e conhecer sobreviventes, não pára de crescer. Esbarrei no fim da semana passada com uma garota austríaca, de Viena, católica, que veio passar 10 dias aqui para isso. Os olhos azuis dela se abaixaram diante do meu olhar atento quando ela contou do encontro com grupos de sobreviventes…

O Holocausto foi, então, claro, o tema óbvio no alemão da chanceler.

A Alemanha se enche de vergonha e responsabilidade

Assim ela disse e repetiu na visita que fez ao Yad Vashem, o Museu do Holocausto. E os jornais israelenses não deixaram ninguém esquecer – como se isso fosse possível – que, como chefe de governo, ela é a descendente política de Adolf Hitler. Não que isso signifique nada além do que é: os dois ocupam o mesmo cargo, como Lula e os generais daditadura, no Brasil.

O discurso em alemão teve uma importância que os mais sensíveis não repararam: ela não falou apenas aos israelenses, mas ao próprio eleitorado, à Europa, ao mundo. E, naquelas palavras, se colocou fortemente ao lado de Israel contra o que a imprensa daqui gosta de comparar com o nazismo alemão: o regime de Mahmud Ahmadinedjad.

Se o Irã obtiver armas nucleares, teremos conseqüências desastrosas

E, estendendo as palavras e as mãos para Israel e pedir a ajuda do mundo ao usar o plural, completou:

Temos que evitar isso

Ela deu o recado, e agradou a platéia daqui, ao dizer que não cabe à comunidade internacional provar que o Irã tem um programa nuclear, mas sim ao Irã provar que não tem.

Merkel e os ministros foram embora e o trânsito voltou ao normal. Do discurso no mesmo alemão do livro que daria origem ao Estado judeu, Der Judenstaat, e da viagem, ficou a certeza de que se tratou de “discutir o futuro, embora não possamos esquecer o passado”. Seja no idioma que for.

After all, did Angela not sound a bit Yiddish?



4 Responses to “A chanceler e o alemão”

  1. 1 Perla

    Gostei muito da segunda parte… vc escreveu naquela noite mesmo? Boa análise, bom ritmo, bom desfecho.
    P.S.: só uma coisinha, tá escrevendo várias cartas hein!

  2. Eu não recebi uma mísera!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  3. 3 tipuri

    Putz, me interessei por isso do “Der Judenstaat”, daria uma boa crônica!!

    abs e continue mandando cartas!

    me

  4. 4 Ila

    Ps. Amigo… minha maezinha mesmo veio em janeiro e fez (mais) um curso no Yad Vashem. 70% das pessoas do grupo dela nao eram judias!

    Fico no aguardo de mais cartinhas…


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