Caminhada política

28mar08

Qualquer andança por Israel serve para revelar os contrastes desse país do tamanho de um ovo de codorna. Acabei de chegar em casa de uma caminhada de menos de uma hora entre Yaffo e meu apartamento, em Tel Aviv. Vim pela tayelet, a agradável orla à beira do Mediterrâneo, que eu tenho a duas quadras de casa.

Hoje é sexta-feira, e sexta é o “dia diferente” em Israel. É véspera de shabat, o dia do descanso no calendário semanal judaico. Por isso, é o dia em que todos correm para comprar as coisas que não poderão comprar durante o sábado – quando tudo fecha. E é o dia em que os jovens e os menos jovens, em Tel Aviv, vão aos cafés para verem e serem vistos – não à toa, as cadeiras dos cafés da cidade são sempre voltadas para a rua! Um desfile de gente real em um cenário de propaganda de margarina.

Mas isso tudo foi mais cedo, bem mais cedo. Com o sol colorindo a cidade, ninguém quis ficar em casa, hoje – nem eu. À tardezinha, antes do sol ir embora (o que acontece mais tarde, porque começou o horário israelense de verão hoje), fiz aquela caminhada pela tayelet. Saí de Yaffo, a parte árabe da cidade, onde ficam ruínas de uma cidade velha e um porto que tem cara de nostalgia.

Yaffo e Tel Aviv são uma só cidade, administradas por um só prefeito. Mas são duas entidades diferentes. O contraste entre elas é gritante como é gritante a diferença entre a Jerusalém judaica e a Jerusalém árabe, ambas também administradas (por enquanto) por uma só prefeitura – de um judeu ortodoxo, aliás. Nas duas Jerusalém e nas duas Tel Aviv, tudo é diferente – as pessoas, a arquitetura, as cores, os cheiros e a infraestrutura…

Entre Tel Aviv e Yaffo fica uma área muito freqüentada, à noite, por jovens – é um complexo de danceterias acariciadas pelas águas do mar, conhecido como Dolphinarium. Ficava ali a Pasha, uma boate que os jovens russos de Tel Aviv e das cidades ao redor gostavam de ir para praticar o jeito israelense de flertar… Um dia, um terrorista foi ao mesmo lugar, com diferentes intenções, e se explodiu na fila, onde muitos jovens estavam aglomerados esperando a vez de entrar.

Mais de vinte morreram. O país e noventa deles ficaram profundamente feridos. Hoje, no lugar da Pasha, existe uma placa comemorativa, como muitas outras espalhadas em pontos de ônibus, shopping centers, parques, na rua – lugares escolhidos por terroristas para puxar o fio que detona o cinto de explosivos que eles levam amarrados ao corpo. Ano após ano, na data dos atentados, pessoas repousam flores ao redor dessas placas. Não havia flores lá hoje, porque o atentado foi em maio, há 7 anos.

Em resposta ao atentado, um grupo de judeus israelenses resolveu “presentear” os freqüentadores da mesquita Hassan Bey, ali ao lado, com uma cabeça de porco – animal considerado impuro tanto por judeus como por muçulmanos, mas vendido em Israel por russos, veja só . O presente foi embrulhado com uma kfiah, e marcado com os dizeres “profeta Muhamad”.

O mundo ainda se lembra do episódio das caricaturas do profeta. Compará-lo a um porco feriu os fiéis da mesquita – pela qual também passei no meu passeio de hoje. E, ali ao redor, famílias de árabes-israelenses faziam churrascos de sexta-feira e crianças e menos crianças jogavam bola com gritos de “passa pra cá”, “ladrão”, “gol” etc em árabe. Tudo muito familiar, outra propaganda de margarina.

Ao caminhar pela orla, com o vento agitando o Mediterrâneo e maltratando meus ouvidos, vim pensando em todas essas diferenças. Mas ao me distanciar daquele pedaço com histórias terríveis, vi gente pedalando, namorando, tomando horríveis cervejas israelenses, tocando a vida.

E cheguei finalmente na Bugrashov, a minha rua, a rua dos bares, de mais cafés com cadeiras voltadas para os pedestres, de agito o tempo todo, de gente desfilando, de cabeleireiros com preços de grife… E aí, de repente parece que estou em outro mundo, onde tudo parece muito bem, todos parecem muito felizes.

De volta à propaganda de margarina…

PS.: meu pai é o mais novo leitor desse carteiro sem poeta. Leitor ilustre e crítico! Bem-vindo ao mundo dos blogs! Bem-vindo ao mundo do seu filho blogueiro!



13 Responses to “Caminhada política”

  1. Adorei, amigo querido. Vc eh sinistro, te amo.
    Shabat shalom… See u on sunday!
    neshikot

  2. tira esse blog do ar!!!

    assim vc só gasta energia do provedor de hospedagem, o q contribui para o aumento do aquecimento global.

  3. 3 De

    onde vc em convida pra fazer propaganda de margarina essa sexta?!
    bjos

  4. Ouvi vc hoje na radio. 6.45 da matina.

    poderia(e deveria) ter falado sobre o reconhecimento do status dos refugiados judeus de paises arabes.

    mas ta melhorando….

  5. Ma’rapaz… que coisa esquisita! Saudade mega-monstra! ILY! Take care. Gros bisou, chuchu!

  6. 6 Ila

    Nao sabia q a Pasha era frequentada em sua maioria por russos…

    Nao tem como esse site enviar automaticamente um aviso dizendo q tem nova carta para nosotros??? ; ))

    Beijos, poeta preferido!!!

  7. 7 Ro

    PLEASE Gabriel…
    Delete my comment…

    I forgot …people don’t understand analogy.

    I should not have commented…

    Please!!! for the sake of our friendship.

    I shall never comment anything anymore!!!!!

  8. 8 Perla

    Boa inspiração e quantos comentários! Muito bom observar com sensibilidade o que acontece a sua volta. As cenas de propaganda de margarina são inevitáveis, não é mesmo Ga? As pessoas apreciam o que é belo, mesmo as superficiais e acabam sempre indiferentes à essência ou a qualidade do que é apreciado. Faz parte da natureza humana, até para suportar os sofrimentos que a gente acredita não ter como alterar. Espaço para a inércia, que bem na verdade é mais cômoda. Mas pode ser também uma apatia social, no lugar que não caberia isso, é claro. Por isso, concordo com o comentário-desafio aí embaixo de mostrar as iniciativas de paz. Caso contrário, para um olhar distante e com pouco conhecimento de causa como o meu, fica parecendo que essas questões e conflitos nunca se solucionarão. Mas tenho pra mim que precisamos confiar no bom e velho espírito humano! Então, mantenha-nos informado com análises tão ricas e instigantes como essa! bj

  9. 9 Mucius

    Por que os jovens que morreram na discoteca vc chama de “russos” e os outros de “judeus israelenses”?

    Ambos são imigrantes da ex-URSS, na maioria judeus. Alias, o que jogou a cabeça de porco na mesquita, pegou 4 anos de prisão.

    Mucius

  10. Grande Gabriel, eres meu amigo mais próximo ao centro de tudo (ultimamente tenho achado que iniciativas de paz que possam ocorrer em jerusalem são simbólicas o suficiente para gerar inspirações a procesosd e paz em outras partes do mundo)

    com isso queria te propor um desafio: sempre que possas, faça um post mostrando alguma iniciativa nessa linha da paz. sei lá, entidades de diálogo, ongs que geram intercâmbios entre as duas partes, iniciativas inspiradoras, mesmo que depequena escala, sutilezas do dia a dia, observadas pelo seu olhar crítico… topas o desafio?

    :P

    abraços do estraviz!

  11. 11 Mucios

    este blog continua uma droga! só mudou de nome.

    como poeta vc é um bom jornalista.

    esta sentimentalidade me dá vontade de vomitar.

    Mucius.

    ps: Lucius é a pqp!

  12. Esta caminhada política me deu uma saudades…só estando em Israel pra entender as particularidades deste país tão multicultural! Enfim, esta tal de “terra santa” é mesmo um lugar muito doido! Impossível não causar alvoroço em quem está lá…Aiai! Não vejo a hora de estar no meio desta “balagan” de novo…

  13. Nooossa….bom! text…pois deu sentimento de estar ali andando com voce!!

    Voce viu no quue deusobre nazistas ai? aqui nao se falou mais.

    mas ainda nao entendi…o facto de voce querer deixar TA.

    Mas pense assim, Leblon etc…os ricos vivem bem e os pobres ficam do alto olhando…pessoas , seres humanos como eles vivendo melhor etc…

    Lembre -se disso…

    Mas que cara inteennnso, sensivel!!
    espero que eu tenha feito clara o que tento dizer…entende?

    seu pai escreve aqui?o_O
    (meu portugues ta anemico como eu)


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