Dois alemães na recepção

12abr08

Está chegando a data em que Israel relembra os seis milhões de judeus mortos nas mãos dos nazistas. O chamado Dia do Holocausto, Yom haShoá em hebraico, é comemorado no dia 1º de maio este ano. Desta vez, não vou estar em Israel, mas no lugar onde há 63 anos milhões de judeus tinham acabado de ser dizimados – os campos de concentração e de extermínio na Polônia.

Vou para participar do evento que ficou conhecido como Marcha da Vida. Trata-se disso mesmo: uma marcha, uma caminhada, que comemora a vida – este ano, cerca de 20 mil pessoas do mundo inteiro vão fazer uma caminhada simbólica, como aquela que muitos dos antepassados dos que estarão lá foram obrigados a fazer. A diferença é que, desta vez, não caminham para a morte.

Ao contrário. Depois do Yom haShoá, deixam a Polônia e o cinza das lembranças estampadas naquele pedaço do mundo e do tempo para pular de alegria pela comemoração dos 60 anos de Independência de Israel, Yom haAtmaut, em hebraico. Soa mercadológico demais, é verdade, mas as datas que separam a morte da vida nesse trecho do calendário judaico têm nada mais que uma semana entre elas.

E nesta semana, boa parte dos 13 milhões de judeus do mundo – e certamente aqueles 20 mil que estarão na Polônia – vai parar para pensar no assunto. Atribuem o surgimento do Estado de Israel à ocorrência do Holocausto, alegando que se seis milhões não tivesse sido mortos alguns anos antes, o Estado que hoje tem pouco mais de seis milhões não existiria. Esse pensamento, embora reduza as coisas à simplicidade da ignorância dos fatos, tem algum sentido, uma lógica.

Esse tempo de reflexões parece já ter começado, de fato. Comentei aqui há algumas semanas sobre a garota de Viena que veio engrossar as estatísticas do “turismo do Holocausto”. Hoje, trabalhando naquela recepção de hotel que parece trazer as pessoas mais estranhas e as mais especiais para mim, conheci dois alemães. Um deles tem 67 anos. Ele nasceu em Berlim durante a guerra, a mesma guerra dos seis milhões de judeus mortos.

Ele contou que o pai, que ele nem chegou a conhecer, morreu na guerra. “Não pude conversar com ele, não sei se ele esteve envolvido na matança de judeus”, ele confessou no inglês carregado de sotaque germânico. E contou que quando chegou a época de servir o Exército, como teve opção, decidiu não ir. “Quem perde um pai em uma guerra só quer fazer a paz”, diz, voltando de uma palestra de Prem Rawat, um indiano que ensina o valor da paz e do amor entre as pessoas.

O outro, bem mais jovem, está em Israel pela primeira vez. Disse que se livrou da culpa que as gerações anteriores e os fatos o ensinaram a ter. Hoje ele vem a Israel e disse que gosta de conhecer as pessoas, todas as pessoas. Não deve ser fácil carregar uma culpa que não é sua. Não é à toa que tantos e tantos alemães, jovens e velhos, vêm para Israel, como para tentar dizer que eles não concordam com o que aconteceu.

PS.: preciso aproveitar para comentar que a participação na Marcha da Vida, na Polônia, é um sonho que eu venho alimentando há alguns anos. Em 2002, quando eu comecei a pensar na idéia, a comunidade judaica brasileira, de tão medrosa, cancelou a delegação – por temer a intifada que corria solta em Israel. Naquele ano, não fui para a Polônia, mas vim para Israel.



4 Responses to “Dois alemães na recepção”

  1. 1 Natália

    Olá Gabriel…lembra de mim, nos conhecemos na despedida da Karina em São Paulo, tudo bem com você?
    Adorei seu post, você escreve muito bem.
    Queria dizer como é importante lembrar das coisas que acontecem em nossas vidas e na vida de outras pessoas, sejam estes fatos ruins ou mesmos aqueles que de imediato nos trazem alegria. Bom saber que existe uma pessoa, brasileiro acima de tudo, que não possui memória curta (acredito que você seja assim em todos os aspectos e não só com relação a sua fé).

    Beijos

  2. 2 Perla

    Que post sensível! E que grande experiência participar de eventos históricos e poder registrar suas impressões. Boa viagem tá!

  3. Parabéns por mais esta conquista querido! Com certeza será uma experiência inesquecível que muitos ainda aguardam por ter…inclusive eu!hehe…este também é um sonho meu que vem desde 2004, mas agora tenho outro na frente!rs…gostei muito dos pensamentos também! Continue assim! Bjs;)

  4. 4 Marcelo Estraviz

    Que bonito isso da Marcha da Vida!! E que belas reflexões essas que colocaste nesse post… refletir pela paz!

    abraço,

    me


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