E então, a Polônia

08jun08


Foto: Gabriel Toueg

Prometi, reprometi, e acabei não cumprindo. Mas cá estou eu, com atraso de mais de um mês, falando do assunto que vem me assombrando desde que estive na Polônia, no comecinho de maio. Participei de parte da March of the Living, mas não contei aqui. E não foi por preguiça ou por falta de tempo. O assunto simplesmente me baqueou, como era até esperado.

Já faz seis anos que eu quero participar da Marcha da Vida. Para quem não conhece (e para quem não ouviu sobre o incidente em que garotos do Rio foram quase seqüestrados por um doido na Varsóvia), trata-se de uma viagem feita por judeus (e não judeus) do mundo inteiro para a Polônia e depois para Israel, que tem como ponto central uma caminhada entre campos de concentração e outra em Jerusalém.

Mas a vivência na Polônia, de uma semana, não é só isso. A caminhada é o evento mais “festivo” de uma experiência pesada de visita a locais onde, há pouco mais de 60 anos (outro dia, portanto) milhões de seres humanos como você, como eu, foram assassinados. Embora seja o evento central da visita à Polônia, a caminhada tem bem menos efeito nas pessoas do que a visita aos campos de concentração e extermínio.

Estive com um grupo de 140 jovens de dezesseis, dezessete anos de colégios judaicos de São Paulo. Fui para acompanhar a visita que esses jovens, muitos deles netos de sobreviventes, fizeram a esses lugares que provam como a humanidade pode ser vil. E pode mesmo. Por outro lado, estar cercado de jovens, em uma idade explosiva, alegre, cheia de vontade de ultrapassar limites, deu outra cara à viagem.

Posar sorrindo ao lado do pórtico de Auschwitz que estampa a ironia do terror (“O trabalho liberta o homem”) não é legal. Mas depois de uma entrevista que eu fiz com uma sobrevivente do Holocausto, alguém que viveu três anos em um gueto e saiu viva, com a mãe e a irmã mais nova, recebi dela uma foto tirada no quarto em que ela e outras 23 meninas viviam no gueto. Na foto, apesar do contexto, todas aparecem sorrindo (ou é impressão minha?)


Foto: arquivo pessoal Michal Beer

Os jovens que fizeram comigo essa viagem tinham consciência do lugar onde estavam. Não sorriam diante do pórtico, mas alegravam os lugares que têm cara e um cheio inconsciente de morte. Choraram, muitas vezes, quando a emoção pegou forte. Uma das imagens que não me sai da cabeça é a de uma montanha de cabelos, com cores diferentes, tranças, em uma das salas do que hoje é o museu de Auschwitz. Fiquei petrificado diante daquilo, imaginando a cena: os nazistas arrastando os prisioneiros para uma sala e tirando, com violência, o cabelo e tudo mais que diferencia um ser humano do outro.

Eles também ficaram chocados. Foi a primeira vez que eu ouvi uma menina chorando copiosamente, de forma descontrolada, até. Para as meninas, dizem, o cabelo tem um valor especial. Talvez por isso, ou talvez porque aquilo é o retrato da desumanidade, ela chorou. E o choro dela, e aquela cena, e todo aquele horror me marcou… E aquele choro não sai da minha cabeça – mais do que tudo que eu vi, que eu fotografei, mais do que os trilhos que conduziam seres humanos para a morte e que continuam por lá…

Mas a Marcha da Vida tem uma outra faceta, que eu encontrei por acaso, quase sem combinar, em uma praça que fica perto da minha casa, aqui em Tel Aviv. Aqueles mesmos jovens, que choraram a morte uma semana antes, festejaram os sessenta anos de existência independente do Estado de Israel. Embora muitos estivessem pisando pela primeira vez em Israel, estamparam uma alegria, uma satisfação, uma sensação de estar em casa…

Yael Engelheart)
Foto: Yael Engelheart

Não importa quanto eu escreva, quanto eu descreva. Fico sempre com a sensação de que está faltando. Aqueles quatro dias na Polônia, em uma primavera fria de maio de 63 anos depois do final do Holocausto, foi muito mais que qualquer texto pode expressar. Pela primeira vez sinto que não domino as palavras. Triste para um jornalista. Mas talvez normal para um indivíduo que viu de perto o que ficou de pé do horror de outro dia.



2 Responses to “E então, a Polônia”

  1. 1 Perla

    Tão tocante a foto das meninas que me deixou com lágrimas nos olhos. Realmente, parece que foi ontem, embora tenham se passado 60 anos, porém ainda vemos as mesmas dinâmicas de desrespeito à alteridade em várias partes do mundo, como nos países pobres da África. Pior é que a maior parte das pessoas nos países ditos desenvolvidos pouco se importa. Triste não é um jornalista ficar sem palavras para descrever o horror do Holocausto, porque ele é humano e se permite ser solidário, triste é ver que o mundo permanece fazendo pouco por quem o constrói, ou seja, nós mesmos, e que aprendemos tão pouco com as lições de vida e morte de Auschwitz.

  2. 2 Celso Zilbovicius

    É triste mesmo…mas importante!Ver até onde chegou o ser humano!Em plena Europa e em pleno século XX!E o que será que aprendemos?Acho que muito pouco ainda….Somos intolerantes…vivemos muito mal com o outro, com o diferente!
    Mas ainda acho que vale a pena…a gente volta diferente…
    Foi uma honra ter vc perto da gente naqueles momentos.
    A reação da galera é estranha mas por outro lado…talvez a melhor resposta para Auschwitz é justamente a alegria de vida dessa galera!
    VIVA A VIDA!!!
    Bj
    Celso


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