Retida no Líbano

01ago08

Um assunto que ocupou páginas de jornais e ondas de rádio esta semana no Brasil foi a retenção de uma paranaense no Líbano. A imprensa brasileira deu, sem checar, a informação de que o marido de Nariman Osman Chiah é do Hizballah – e de que o impedimento de viagem teria vindo do grupo. Claro, assim vende mais, é mais sensacional.

Em uma entrevista que eu fiz com Ghida Anani, uma representante da entidade libanesa Kafa, que tem dado assistência à brasileira, descobri que o sujeito é sunita (enquanto o Hizballah, vale lembrar, é um grupo xiita) e que, também diferente do que foi publicado primeiro pela BBC Brasil, depois pelo resto da imprensa, a lei libanesa impede, a exemplo da brasileira, viagens de crianças sem autorização por escrito dos dois cônjuges.

A história publicada na BBC Brasil era a seguinte: mulher brasileira de 21 anos e filho de 6 são impedidos de sair do Líbano por ordem do Hizballah. O grupo teria emitido um “documento de caráter religioso” impedindo a saída da brasileira do país. A Ghida Anani, com quem eu conversei, garantiu que, se quisesse sair sozinha, a Nariman poderia – o que prova que o impedimento (legal, e não religioso) tem a ver com a criança.

Com os desdobramentos, descobriu-se que o marido da brasileira, ela também de família libanesa, não é do Hizballah. Ela mesma, em entrevista à Rede Eldorado, contou isso. A mãe da Nariman, em uma conversa por telefone comigo, disse que o Hizballah não tem nada a ver com a história.

Tentei entrar em contato com o cônsul-geral do Brasil em Beirute, Michael Gepp, que foi mencionado na matéria original da BBC Brasil sobre o assunto dizendo que o documento seria de fato do Hizballah. Só consegui um email, quando o assunto já estava morto, assinado por ele, segundo o qual, “por razões de segurança, não estamos mais divulgando informações”…

A mãe da brasileira também me contou que o genro é violento e disse que ele é “um falso e mentiroso”. A verdadeira história veio dela: o libanês conseguiu convencer a Nariman a deixar o Brasil mas, desde que chegaram no Líbano, há poucos meses, ele é violento, a agride (por isso a assistência da Kafa, entidade de Ghida Anani) e usa drogas. Faz sentido, então, que ele não seja xiita. Ela quis escapar, ele não deixou.

Ou seja: mais uma história de violência doméstica, tão comuns no noticiário sobre o Brasil e, também, sobre o Líbano (aconselho a leitura do livro O livreiro de Cabul, que relata a forma como mulheres são tratadas em sociedades árabes). Mais uma história de uma mãe que quer se livrar do marido violento e tenta fugir com o filho. Nada a ver com política, nada a ver com o Hizballah.



4 Responses to “Retida no Líbano”

  1. qualquer pais tem essa lei, os pais tem ed autorizar!! sem contar que se basear em livrecos como livreiro de Cabul para falar de árabes é demais né, j[a que o Afeganistão nao é pais arabe ehheheheh

  2. 2 FERNANDA FREIRE

    INFELIZMENTE, PARA QUE ELA CONSIGA SAIR DE LÁ COM O FILHO DEVE – SE APELAR PARA QUALQUER CONDIÇÃO, A IMAGEM DO FILHO ABRAÇADO COM ELA CHORANDO É DEMAIS DOLOROSO PARA QUALQUER PESSOA PRINCIPALMENTE QUEM É MÃE, PELO CARINHO QUE O FILHO TEM COM ELA VÊ-SE QUE ELE A AMA MUITO, E O PERIGO DELA NÃO PODER SAIR DE LÁ COM ELE É REAL, O QUE TORNA O PROBLEMA AINDA MAIS DRAMÁTICO, INFELIZMENTE QUASE TODOS QUE PODEM OU TEM CONDIÇÕES DE FAZER ALGUMA COISA FICAM EM CIMA DO MURO, DO TIPO RESOLVER TUDO DIPLOMÁTICAMENTE O QUE TORNA ISSO UMA HISTÓRIA QUASE SEM FIM, E O PIOR É QUE NO LÍBANO OU EM QUALQUER PAÍS MUÇULMANO A DIPLOMACIA QUASE NÃO TEM VÓZ ATIVA. POBRE PRINCIPALMENTE DESSA CRIANÇA QUE ATÉ SAIR DESSA SITUAÇÃO E DEUS QUEIRA QUE SAIA TUDO BEM, VAI ESTAR PSICOLOGICAMENTE AFETADO.

  3. Bem que achei estranho ela ter dito naquela entrevista em que você me passou o link que não é necessária uma autorização do marido pra sair do país. Onde já se viu isso?!? Ainda mais quando se trata de um menor de idade, sendo este uma criança! Faço das palavras da Dé as minhas: “Ainda bem que temos jornalistas, assim como você, que nos trazem a verdade”. Ahhh, gostou do livro, heinnn?!? hehe…muuuito bom! Bjs;)

  4. 4 De

    NIGUEM MERECE!!!
    bom, assuntos desse tipo, sem politica, sem sensacionalismo, nao vende jornal, neh?!
    aiai… ainda bem q temos jornalistas, assim como voce, q nos trazem a verdade, rs! ;-)
    quem viu o jornal do canal 2 em isarel onte, tb sabe q a violencia domestica em isarel esta cada vez maior… essa semana, uma mulher, mae de 3 (ou 2?! nao lembro) foi morta com algumas muitas) facadas, em sua casa e na frente dos filhos… TRISTE!
    mais triste eh q se nao tem nada a ver com politica e hizbolah o assunto nao eh de interesse de “ninguem”…
    volto ao q disse e pensei nq quinta feira qdo a noticia era q o marido faz aprte do hizbolah, e espero q essa mulher consiga sair de la o mais rapido possivel… boa sorte para ela!


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