Lehitraot*, Olmert

03ago08

O adeus do premiê

Aconteceu o que já se previa. Em meio a acusações de corrupção, envelopes de dinheiro e uma crise interna que começou com a Segunda Guerra do Líbano, o premiê israelense Ehud Olmert acabou adiantando o que ia acabar acontecendo de uma forma ou de outra: renunciou, em um discurso surpresa, desses que os estadistas gostam de fazer para escrever páginas na história.

Mas Olmert sai da história de Israel muito mal. Ele arrastou o país para uma guerra cara, que há duas semanas se provou totalmente desnecessária, se envolveu em cinco investigações sérias por corrupção, ainda em andamento. Em um texto do Haaretz publicado ao final do combate com o Hizballah, o jornalista Ari Shavit escreveu:

Você não pode levar um país inteiro para a guerra com a promessa de vitória, provocar uma derrota humilhante e continuar no poder. Você não pode enterrar 120 israelenses, manter um milhão deles em abrigos durante um mês, e então dizer “Ops, cometi um erro”.

Os israelenses sabiam o tamanho do erro que o Olmert tinha cometido e esperaram pela renúncia, prometida no dia em que a última investigação foi revelada. Demorou, contudo. E vai demorar, ainda. A renúncia não é imediata. Apenas em dois meses Israel poderá dizer adeus ao líder que, muitos bradam por aqui, já vai tarde. A popularidade dele chegou a estar tão baixa que em muitas pesquisas não ultrapassava números de um dígito apenas.

Mesmo com a popularidade baixa depois da guerra, ele conseguiu se manter no poder, arrastando-se entre ataques do público, de colegas de partido e de outros políticos no governo. Ele sobreviveu ao relatório Winograd, que provou os erros do governo no combate, sobreviveu pedidos da ministra de Exterior Tzipi Livni para que ele renunciasse, sobreviveu ameaças dos partidos da coalizão de pular fora.

O premiê rodou com o escândalo dos 150 mil dólares recebidos em dinheiro vivo do milionário norte-americano Moshe Talansky. A isso, Olmert não conseguiu sobreviver. Há quem diga que Talansky resolveu abrir o bico depois que rabinos o pressionaram para contar a história dos envelopes – Olmert, herdeiro político do responsável pela saída da Faixa de Gaza, não é amado na comunidade ortodoxa…

Vale lembrar aqui um episódio da história recente israelense. Quando o ex-premiê Ariel Sharon concluiu o ousado plano de saída da Faixa de Gaza, há três anos, os ortodoxos prometeram atacar. Fizeram a “macumba” deles e, alguns meses depois, Sharon estava vegetando… Pode ser apenas coincidência, mas…

A diferença entre Olmert e Sharon é o tamanho da popularidade. Mesmo envolvido em escândalos por corrupção e em um momento no qual o país estava afundado em problemas econômicos e de segurança, Sharon era adorado pelo público. O carisma e a empatia lhe serviram como um colete à prova de balas, que Olmert não tinha. Não deu outra: caiu.

Confusão por um bilhete. Pouca coisa fez tanto barulho durante a visita do senador norte-americano Barak Obama a Israel, na semana retrasada, do que o bilhete que ele colocou no Muro das Lamentações. O bilhete foi retirado, aparentemente por um estudante de yeshivá (seminário rabínico), e publicado pela imprensa local, primeiro pelo mais sensacionalista dos jornais daqui, o Maariv, depois por outros que não quiseram ficar atrás, e então por blogs e várias páginas na internet.

A discussão girou em torno de dois temas. Um deles foi sobre até que ponto a imprensa agiu mal ao publicar o bilhete. Para quem não conhece, o Muro das Lamentações é o local mais sagrado do judaísmo. Símbolo da Jerusalém judaica, é ali que fiéis e visitantes judeus (e não judeus) depositam papéis com pedidos dirigidos a Deus. O do Obama, anotado em uma folha do hotel em que ele se hospedou, tinha uma mensagem bastante cristã:

Senhor, proteja a mim e a minha família. Perdoe-me pelos meus pecados e me guarde do orgulho e do desespero. Dê-me a sabedoria para fazer o que é certo e justo e faça de mim um instrumento da sua vontade.

Daí, a segunda questão: teria sido estratégia de marketing da campanha do senador democrata a publicação do bilhete? Difícil provar, embora os jornais, o Maariv à frente, tenham corrido para dizer que o bilhete foi divulgado antes mesmo de ser colocado no Muro. Poderia ser uma manobra para demonstrar como o candidato, com origem islâmica, é cristão, o que pesa muito na corrida presidencial norte-americana…

*Lehitraot, em hebraico, significa adeus.



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