‘Não me chame de negro’

12ago08

O título deste post é o nome de um programa que foi ao ar no final de semana no canal 2 da televisão local. Quem olha a sociedade israelense de fora não tem muita idéia de quão preconceituosa ela é.

E em um país formado por diferentes, os preconceitos são diversos e arraigados. Laicos odeiam religiosos, árabes e judeus se odeiam mutuamente, e existe um preconceito velado entre orientais (mizrahim) e o típico “israelense-branco-europeu-laico-ocidental” (ashkenazi).

Quando eu toquei no assunto com a minha roomate, que tem 37 anos e vem de uma família mizrahit, ela disse que nunca sentiu preconceito diretamente. O papo, informal, na nossa cozinha, enquanto ela preparava umas batatas assadas que são a especialidade dela, não me convenceu muito.

Na prática, os mizrahim são considerados inferiores por aqui: muitos têm trabalhos secundários, moram em regiões periféricas, são famosos pelo machismo, pela grosseria, pelas famílias patriarcais centradas na figura do homem etc. Muito disso faz parte de um mito que se criou ao redor dessas populações, que chegaram de países árabes e do norte da África.

Anteontem saiu no jornal uma matéria sobre uma mulher que foi barrada em um bar de Tel Aviv – o reduto dos ashkenazim laicos – aparentemente por causa da cor da pele. Ela não é etíope, como se pode imaginar, mas vem de uma família do Marrocos. A história dessa mulher, que foi ao bar para a despedida de solteira de uma amiga e não conseguiu entrar, se repete bastante por aqui.

No programa do canal 2 fizeram um teste. Um sujeito com um sobrenome tipicamente ashkenazi e outro mizrahi mandaram currículos para uma mesma posição que uma empresa anunciou na internet. O mizrahi nunca foi convidado para uma entrevista – o outro, sim.

Depois, os mesmos sujeitos foram a um shopping center. Entraram, separados, em uma loja que anunciava um emprego. O “negro” foi recebido com antipatia por uma atendente que pediu para ele deixar o número do telefone. O outro conseguiu uma entrevista no lugar, na mesma hora.

O programa ainda mostrou números. A maioria, 60%, dos presos em Israel é mizrahi. A maioria, também 60%, dos desempregados, idem. Na panelinha do sistema judiciário israelense não há mizrahim na corte suprema, pouquíssimos em outras instâncias. Propagandas têm muito menos modelos “negros” do que “brancos”. E assim vai…

Mas o maior problema não está nos números, e sim na relação entre as pessoas. Apesar de ser uma panela de misturas que resulta em um colorido bacana, Israel é um país onde nem sempre ser diferente é bom negócio.

Branco. Uma amiga que mora no Canadá relata como é o preconceito por lá. Ao contrário do racismo israelense, lá ser chamado de branco é uma ofensa.



10 Responses to “‘Não me chame de negro’”

  1. 1 Fernanda Fig

    Estive em Israel há um ano e fiquei impressionada com a decadência e a tristeza da sociedade judaica; o preconceito e a desigualdade me impressionou. Tudo vai contra o conceito do estado justo que seria Israel e da imagem que é passada mundo afora.

    Vi como os sefaraditas são postos de lado, como vc citou, vi um rapaz com aparência árabe ser barrado em balada na minha frente, enquanto eu pude entrar tranquilamente com gringos, vi um imbecil australiano com cara de serial killer nazista (e que estava servindo o exército israelense) dizer na minha cara que odeia sul-americanos.

    Triste. Não sei qual é a união entre esses judeus, se é que um vê o outro como judeu. Não sei qual a função do tal estado judeu (conceito que eu já acho discutível) quando não se consegue fazê-los viver em harmonia. E pior: acho que a memória do que aconteceu há 80 anos anda fraca, apesar de se gabarem de nunca esquecer das coisas…

  2. 2 Silvio Cascione

    Valeu pela visita! O blog ainda nem começou, na verdade… Mas daqui um mês e meio a viagem começa, e daí espero colocar coisas mais interessantes por lá.

    Abraço!

  3. 3 Silvio Cascione

    Conheci o blog hoje, e pretendo voltar. Parabéns pelo texto!

  4. Carinha,

    Fiquei viciado no seu blog … Devia ter algum tipo de aviso, do tipo “altamente viciante” (rs)

    Estou gostando muito de seu equilíbrio… Fazia tempo que eu não lia nada sobre Israel que, mesmo com minhas opiniões fortemente arraigadas contra o sionismo, me despertasse a simpatia pelo país.

    Espero ler muito mais, daqui pra frente.

    Fortíssimo abraço.

  5. 5 Eli

    Oie,
    Sabe que esse seu post me lembrou da balada em jerusalém em que vc comentou que gostava de ver a diversidade do país e apontou prum casal de etíopes dançando e pra um grupo de russas na mesma pista…
    Na minha cabeça bem bagunçada pelos acontecimento recentes fiquei achando tudo uma maravilha…saí daí louca pra fazer aliá, não só por este motivo…
    É muito bom conversar com os amigos que estão por aí e ter uma noção de como andam as coisas…
    Valeu por compartilhar essas coisas conosco!
    Beijos

  6. Oi Ga, eu acho que em todos os lugares existem problemas assim. Toronto eh uma cidade com pessoas do mundo todo, eh uma mistureba de culturas. Aqui, ser chamado de “white” eh uma coisa ruim, sao normalmente canadenses cujas familias ja estao aqui muitas geracoes, sao pessoas consideradas sem cultura, sem paixao, sem nada…

    Quer saber o mais interessante? Eles dizem que eu nao sou branca e quando eu contesto e digo que sou eles me dizem, “No, you’re not, you’re south american”.

    Seu texto me inspirou, quando eu tiver um tempinho vou escrever sobre esse assunto no meu blog.

    Saudades, beijocas!

  7. 7 Diogo

    Estou começando a achar mesmo que você só fica na frente da TV o dia todo =)

    Me manda o seu e-mail e contatos para di…?

    Abraço!

  8. 8 Ana Néca

    So sad a vida humana sobre a terra em certas horas… Nessas então…!

    E eu vejo isso de perto tantas vezes. Que coisa…!

  9. O pior de tudo é saber que tais atitudes partem de pessoas de um mesmo povo, povo este que já tentou ser dizimado inúmeras vezes! Uma pena ver este tipo de postura numa sociedade que deveria se unir ao máximo. Afinal, como se já não bastasse os inúmeros inimigos que temos por aí, ainda temos que lidar com este tipo de conflito interno entre pessoas, acima de tudo, de um mesmo povo. “A Coexistência não é necessariamente aprender a viver junto, mas talvez aprender a viver lado a lado.”


  1. 1 O humor e suas verdades « CARTEIRO SEM POETA

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