Dead line

17ago08

perigo (AFP) [clique para ver a foto completa]

Profissão: perigo (AFP) clique para ver a imagem completa

Foi uma semana dura para os jornalistas. Não menos que quatro “dos nossos” morreram no conflito entre a Rússia e a Geórgia, no sul do Cáucaso. Quatros foram presos ou tiveram equipamentos roubados. Tantos outros ficaram feridos, entre eles Tzadok Yehezkeli,  repórter experiente do jornal israelense Yediot Aharonot, um dos maiores do país. Uma equipe da televisão turca foi alvo de disparos. A jornalista da Geórgia Tamara Urushadze foi atingida por um tiro durante uma transmissão ao vivo (veja o vídeo).

Por aqui, no Oriente Médio, as coisas não têm sido diferentes. Um fotógrafo israelense ficou ferido enquanto cobria manifestações em Na’alin, vila palestina perto de Ramallah. Os protestos eram contra o traçado da cerca de segurança que Israel está construindo no local, cortando Na’alin em duas partes. Os manifestantes eram israelenses e palestinos, juntos…

Também esta semana, e também em Israel, o Exército declarou que o disparo de um míssil contra uma equipe da Reuters foi justificado e que decidiu não punir os militares envolvidos. O câmera Fadel Shana’a morreu no ataque, que aconteceu há quatro meses na Faixa de Gaza. Oito pessoas morreram, além do jornalista, que era palestino e trabalhava para a agência de notícias. O vídeo, feito por Shana’a, mostra como foi o ataque.

Há menos de dois meses eu estive na fronteira com a Faixa de Gaza com outros jornalistas estrangeiros, entre eles um da Reuters. Em uma entrevista com o porta-voz do premiê Ehud Olmert, ele indagou sobre o ataque que custou a vida do colega – mas, na ocasião, não recebeu nenhum esclarecimento além de um diplomático “investigações estão sendo conduzidas e a Reuters vai ser a primeira a conhecer as conclusões“.

Em uma semana como essa, muito se falou sobre os riscos da profissão. Muitos questionaram se vale a pena assumir os riscos em nome de uma boa imagem, uma história. O jornalista Ron-Ben Yishai, também do Yediot Aharonot, disse que os riscos valem sim a pena. Em um artigo assinado no jornal, ele escreve:

Reportagens ou fotografias enviadas do campo de batalha são insubstituíveis. Apenas jornalistas talentosos que estejam no campo de batalha podem diferenciar fatos da propaganda que os dois lados envolvidos passam para a mídia local e internacional.

Ben-Yishai, que já cobriu conflitos em lugares como o Afeganistão, os Bálcãs e a África, diz ainda que o trabalho do jornalista é um serviço humanitário. “A presença de jornalista e fotógrafos nas zonas de conflito impede que se cometam atos horríveis contra civis ou inimigos”, escreve. Ele conta que nas coberturas que fez, em diversas ocasiões viu combatentes mudando de idéia sobre disparar contra prisioneiros ao notar a presença de jornalistas e câmeras.

As opiniões, claro, se dividem. Há quem pense, como o editor-executivo do serviço mundial da BBC, Américo Martins, que o risco não vale a pena. O argumento dele é simples: repórter morto não conta história. O relato é do jornalista Mauricio Horta, no blog Novo em Folha.

De fato, dezenas de jornalistas morrem todos os anos cobrindo conflitos ao redor do mundo. Números da Repórteres sem Fronteiras só sobre o Iraque, onde a foto que ilustra este post foi feita: 217 jornalistas e profissionais de imprensa mortos desde 2003, dois desaparecidos, 14 seqüestrados.

Em se tratando de Oriente Médio, nenhum caso é tão simbólico, dramático e conhecido como o do jornalista Daniel Pearl, do Wall Street Journal. O fato de ser judeu nunca o impediu de trabalhar em países árabes. Os colegas sempre o elogiavam pela imparcialidade e pela paixão que ele dedicava aos assuntos que cobria. Mas ele foi seqüestrado e morto, diante das câmeras, quando corria atrás de uma história no Paquistão, em 2002. Valeu o risco? Recentemente li o livro Cidadão do mundo, que trata dele e reúne 50 textos publicados no WSJ. Veja um trecho de um documentário da HBO sobre Pearl, narrado pela Christiane Amanpour.

Em campo. O jornalista israelense atingido em Gori já tinha sido ferido antes. Ironicamente, o incidente aconteceu quando ele ainda cobria esportes para o mesmo jornal. Depois de criticar os jogadores do time de futebol Beitar Jerusalém, dono da torcida mais fanática do país, ele foi esfaqueado por um torcedor.

Quem disse que jornalista só corre risco em campo de batalha?

Do New York Times: A guerra segue, mas onde está a mídia?



2 Responses to “Dead line”

  1. 1 Diogo

    O incrível é a repórter atingida continuar a reportagem, mostrando o ferimento. Essa coisa de jornalista é meio narcotizante. Sugiro o artigo “Abutres ou heróis” da Dorrit Harazim, no qual ela fala sobre o trabalho de jornalistas na África do Sul. É chocante.

    http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/al070220017.htm


  1. 1 Dead line: os riscos da profissão | Gabriel Toueg: jornalista

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