Gays e a farda

14set08

Há alguns dias, o Pedro Doria publicou no blog dele um comentário sobre a presença de homossexuais nas fileiras militares em diferentes países. E destacou que no Oriente Médio, apenas Israel permite que gays façam parte do Exército.

Gays assumidos só são excluídos das armas
em regiões mais atrasadas do mundo.
(Pedro Doria)

A exceção à regra do comentário é a política dos Estados Unidos sobre o assunto. Embora não façam parte dos “países mais atrasados do mundo”, eles não permitem gays no Exército – na realidade, permitem desde que os soldados não revelem a escolha sexual, o que dá na mesma…

Eu arriscaria dizer que Israel permite homossexuais no Exército talvez porque, de tão pequeno, o país não pode se permitir o luxo de mandar rapazes para casa só por conta da opção sexual deles.

Vale dizer, aliás, que existem alguns grupos em Israel liberados do serviço militar por definição. Ultraortodoxos, por exemplo, não precisam servir. Nem árabes-israelenses, embora podem ser voluntários em unidades que não estejam envolvidas com inteligência militar. Drusos, contudo, são obrigados a servir. Beduínos não precisam, mas muitos entram como voluntários.

Pessoas com perfil de saúde muito baixo são isentas, também. Idem para mulheres que declaram viver de maneira religiosa, ou que estejam casadas e com filhos. “Esportistas e artistas com excelência reconhecida recebem tratamento especial que permite continuar se desenvolvendo nos respectivos campos durante o serviço militar” – quem conta é o Gabriel Castellan, argentino que serve na unidade de informação do Exército.

Embora o homossexualismo seja tido no judaísmo ortodoxo como aberração, Israel é um dos países em que eles têm mais liberdade – mesmo cidades religiosas, como Jerusalém, permitem a realização de paradas gays, por exemplo, ainda que com restrições e cuidados especiais por parte da polícia. Em Tel Aviv, cidade totalmente liberal, o homossexualismo é encarado numa boa e paradas gay, como a deste ano, fazem muito sucesso.

Na realidade, não apenas judeus ortodoxos torcem o nariz para o homossexualismo. Muçulmanos também proíbem a relação entre pessoas do mesmo sexo. Em Jerusalém, cidade sagrada tanto para uns como para outros, líderes islâmicos se unem aos judeus quando tentam organizar paradas gays. Mas o tema, mesmo entre muçulmanos, é bem menos tabu aqui do que em outros países do Oriente Médio. Aqui, por exemplo, existe um instituto para estudar o assunto.

E, como a arte imita a vida, não são poucos os filmes que tratam do tema. Apenas puxando pela memória consigo me lembrar de dois. Um deles, chamado HaBuá (“a bolha” em português), mostra o estilo de vida de Tel Aviv, discute temas políticos e conta a história de um casal formado por um reservista israelense e um rapaz palestino – que se conhecem em um posto de controle militar…

Vale a pena também conferir o teaser do filme: “Existe Israel… E então… existe Tel Aviv” – o nome do filme, aliás, é uma referência ao carinhoso apelido que a cidade recebe por estar tão psicologicamente afastada do resto do país. As cenas quentes do filme não deixam dúvida: sobra liberdade mesmo em temas polêmicos – e, como é de se imaginar, não faltam polêmicas em um país conturbado como Israel. 

Outro filme, mais antigo, Yossi & Jagger, do mesmo diretor, o Eytan Fox, mostra o namoro entre um soldado e o oficial, que servem juntos em um posto militar israelense na fronteira com o Líbano – o filme foi lançado em 2002, apenas dois anos depois da polêmica saída das tropas israelenses do país vizinho. Os dois precisam enfrentar o medo de serem descobertos pelos colegas – embora seja bastante liberal, a sociedade israelense é ainda bastante machista, também.

Vindo do Brasil, país que vende uma imagem de liberal mas que no fundo encara como tabus temas como homossexuais e sexo, eu confesso que já me espantei com a forma com a qual os israelenses encaram numa boa os mesmos temas. Mesmo em uma boate e entre heterossexuais, por exemplo, gays se sentem bastante à vontade para fazer o que der na telha.

Não é de espantar, no final das contas, que o Exército reflita essa mesma reação sem espanto nenhum.

Lendo a respeito do tema, encontrei uma história bastante interessante. Na Grécia antiga, casais de gays lutavam juntos em uma unidade conhecida como Batalhão Sagrado de Teba. A idéia era uma só: o laço afetivo entre os soldados fazia com que eles lutassem mais ferozmente, de forma a proteger os companheiros. Claro que isso tudo veio antes do advento do Cristianismo e da crença em que não apenas o homossexualismo como qualquer forma de sexo eram impuros.



7 Responses to “Gays e a farda”

  1. adorei o tema…
    até fiquei sabendo de um marinheiro que assumiu o seu relacionamneto nos Estados Unidos e foi espulço da corporação por isso.O soldado entrou na justiça contra a marinha, mas perdeu apesar de estar sofrendo preconceito, o juiz deu a sentença favoravel a Marinha dos Estados Unidos.
    falta de vregonha na cara né.

    http://voceeutudohaver.wordpress.com/

  2. Assisti “Bubble” neste findi. Realmente muito bom! Um retrato fiel da atual sociedade Israelense, principalmente do ponto de vista dos jovens. Incrível como cada um dos personagens está entrelaçado no destino do outro. São pequenos detalhes, pequenos atos que mudam a história de cada um drasticamente. Sem contar o maravilhoso “pano de fundo” da história. Amei!

  3. O Eytan Fox sempre teve todo um cuidado em tratar do assunto, de maneira que mesmo os heterossexuais conseguem se encantar com a história. E Bubble é o melhor exemplo disso. Sem contar que ele só aumenta minha vontade de conhecer a “cidade bolha”.

    E sobre a maneira como Israel lida com os gays, é pra ser tida como exemplo… teoricamente, é um país muito mais conservador que o Brasil, mas racional o suficiente pra aceitar que é algo comum e cotidiano, não há como fugir.

  4. 4 Diogo

    Sensacional! E adoro Bubble! =)

    (foi quando decidi ir pra Israel, acredita? Me apaixonei por Tel-Aviv, na época)

    Abraço!

  5. Não pude deixar de me emocionar quando assisti o filme “Yossi & Jagger” ou “Delicada Relação”, como foi traduzido para o português. O filme é lindo! A trilha sonora no final acabou comigo…Toda vez que vejo, choro copiosamente..hehe..

  6. Estou simplesmente encantada com sua página…
    Obrigada pela profundidade de informações, hj é o primeiro dia que visito, mas passarei muito tempo lendo o que passou e o que virá.
    Um abraço

  7. 7 Fernanda

    É, o Eytan Fox só faz filme militante, como bom gay que é (e os filmes são ótimos). Concordo com vc sobre os israelenses serem mais mente aberta em relação a isso. Uma vez hospedei 2 isralenses em casa e eles adoraram dois amigos meus gays (achei tão legal essa falta de julgamento).

    Tem um cineasta judeu nova-iorquino tb, esqueci o nome… Ele já tinha feito um filme sobre judeus gays, se não me engano, e ano passado lançou um filme na mostra de cinema de SP sobre homossexualismo entre muçulmanos. Queria ter visto, mas não deu.

    Incrível que eu conheci gente no Egito (egípcios) que diziam que “no tempo do Alcorão não tinha gay”. Hello, né? Mas não adiantava discutir, era a mesma coisa que falar com a parede.

    Bom, aqui no Brasil, vc deve ter lido sobre a polêmica dos sargentos gays que foram expulsos do exército pq se assumiram. Ridículo.

    Bjos


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