Os fundamentalistas de cada lado

14out08
cidade pacata

Akko: cidade pacata

Se você se interessa pelo que acontece neste canto do mundo, deve estar acompanhando a confusão entre árabes e judeus em Akko, uma cidade portuária normalmente tranqüila, localizada no norte de Israel. A cidade, que tem população de árabes e de judeus convivendo pacificamente, virou um barril de pólvora durante o feriado de Yom Kipur, na semana passada, e explodiu com força nos cinco dias seguintes.

Como eu sempre digo, a culpa é dos fundamentalistas. Os fundamentalistas de cada lado, os judeus e os árabes. Tudo começou quando um sujeito árabe decidiu passar, de carro – o que é proibido pelo judaísmo no Yom Kipur – em uma região habitada por judeus. O desrespeito à religião dos outros é um erro, mas a reação foi desproporcional: um grupo de judeus tomou as leis nas mãos e jogou pedras no sujeito do carro.

O que deveria ser mais um conflito isolado entre uns e outros fundamentalistas virou uma bola de neve rolando montanha abaixo. Árabes da cidade resolveram revidar as pedras judias e a tranqüila Akko virou um campo de batalha. Em dois dias, centenas de carros ardiam em chamas, havia dezenas de feridos. Lojas e casas foram depredadas e queimadas. 

A polícia precisou intervir de forma intensiva, bloqueou os acessos à cidade, parou a violência. Quando as coisas pareciam mais calmas, políticos abriram a boca na hora errada e chamaram os incidentes de pogroms – os judeus disseram se tratar de um pogrom árabe contra judeus, os árabes disseram se tratar de um pogrom judeu contra árabes. 

A violência foi retomada, a polícia precisou agir de novo. Ontem, o presidente Shimon Peres foi para a cidade para acalmar os ânimos e se encontrar com líderes dos dois lados – rabinos, shiuch, o prefeito de Akko. Horas antes, quando a Casa Presidencial anunciou a visita, ele disse assim:

Todo esforço deve ser feito para acalmar as tensões em Akko. A cidade precisa voltar para a coexistência e o respeito mútuo

Pudera.

A visita surtiu algum efeito, porque Akko voltou a uma normalidade tensa, mas hoje um grupo palestino ameaça matar um deputado israelense de extrema-direita em resposta aos incidentes por lá. A bola de neve continua rolando morro abaixo…

O que eu tenho a dizer sobre isso? O Yom Kipur no meio da história – que, como já contei, é o feriado em que até as televisões e as rádios param – deu a chance de que a mídia não servisse para botar lenha na fogueira. Não adiantou. Quando a imprensa voltou à ativa no fim do feriado, começaram as acusações, dos dois lados, por meio da mídia.

O que me espanta nisso tudo é o fato de um país democrático não agir enfaticamente contra os seus fundamentalistas. Que há deles de sobra é fato conhecido. Mas quando o país precisa punir atos violentos e coibir novos incidentes, falha. A polícia faz corpo mole, os políticos fazem discursos e no final das contas, como sempre, as minorias pagam a conta. 

Não é à toa que, pouco mais de uma década depois do assassinato do premiê Rabin por um fundamentalista judeu, parte da população israelense já aceita a idéia de deixá-lo sair da cadeia, apesar de a condenação ser perpétua. Lembro-me da última manifestação em lembrança do assassinato, em novembro do ano passado. Foi dias depois do nascimento do fillho do assassino, que casou e engravidou a mulher atrás das grades.

É preciso parar os fundamentalistas. Os fundamentalistas de cada lado.



One Response to “Os fundamentalistas de cada lado”

  1. Lamentável um incidente como este, que alem de criar um conflito entre os moradores da região, acaba assustando diversos turistas que visitam o local. Conforme depoimento de uma turista que visitava o lugar, ela experimentou o maior medo de sua vida, conforme testemunhou: “Todos eles corriam com o rosto mascarado, segurando facas e pedras; a certa altura tive o pensamento de que eles iam matar todos nós”. Simplesmente intolerável! Cadê o respeito e a coexistência, que, de certa forma, sempre prevaleceram na região?


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