Olhe para os dois lados

19out08

 O assunto do fim de semana em Israel foi um acidente trágico, no coração de Tel Aviv, que matou uma jovem de 27 anos e deixou uma amiga gravemente ferida. Nas fotos ao lado, a capa de hoje dos principais jornais israelenses, Ma’ariv e Yediot Acharonot (clique para ampliar).

Não poderia ser mais absurdo.

A polícia parou e prendeu um motorista que se recusou a se submeter ao bafômetro. Um amigo dele assumiu então o volante, provocou o acidente 20 minutos depois e fugiu do local – o que também em Israel é considerado crime grave.

Durante o fim de semana, o motorista responsável por mais esse acidente foi apanhado pela polícia. Não foi o único acidente com morte na sexta-feira. Houve outros dois incidentes. Mas esse chamou a atenção pela falta de sorte – chamemos assim – da polícia, que prendeu um sujeito por suspeitar que estava bêbado e deixou o amigo assumir o carro…

Acidentes de trânsito em Israel são uma preocupação crescente. Apesar das estradas em boas condições, de reformas constantes, de sinalização relativamente boa (e trilíngüe), os israelenses são um tanto selvagens no volante. Os israelenses e as israelenses, em igual medida. E a polícia não sabe lidar com o problema – o exemplo do fim de semana prova isso, mais uma vez.

Antes das eleições para prefeito no Brasil, ouvindo as propagandas do TRE para votar direito, não pude deixar de pensar nas campanhas feitas em rede de rádio e de televisão em Israel. Aqui, como o voto não é obrigatório, a preocupação não é essa – mas o trânsito.

Aliás, vale dizer que Israel também está em época de eleições municipais. Os israelenses vão escolher os prefeitos para os próximos anos, mas ninguém dá a menor bola para o assunto. A única disputa que ocupa as manchetes dos jornais e de vez em quando vira assunto em roda de boteco é a de Jerusalém.

Vou falar sobre o assunto mais pra frente, quando estivermos mais próximos das votações, que acontecem em novembro. Mas, para deixar um gostinho, uma curiosidade: ser prefeito de Jerusalém, para um israelense, equivale em importância a ser presidente dos Estados Unidos para um americano. É ser o manda-chuva da cidade mais importante e disputada da região.

Voltando ao trânsito, então, são recorrentes campanhas, geralmente chocantes, relacionadas a essa que é uma das maiores responsáveis por mortes de israelenses, mesmo em tempos de guerras. Durante a segunda intifada, que começou em 2000, mais gente morreu em acidentes do que em conflitos ou atentados.

E há quem diga que esses números aumentam em época de conflitos com os vizinhos justamente pelo stress e pela tensão por conta de preocupações com coisas menos mundanas do que… dirigir bem. Dirigir bem, aliás, não é coisa de israelense. Dá vergonha de ver como esse povo guia – com agressividade, impaciência e imprudência!

Há, contudo, outra explicação, que não depende de épocas de guerra e não muda em tempos de calma: o fenômeno panela de pressão. O jeito agressivo dos israelenses no volante é herança de seis décadas de confinamento em um país pequeno, cercado de inimigos, obrigatoriedade de servir no Exército, de ser “gever gever” (machão) etc.

São inúmeras campanhas, que tentam chocar para mudar o modo israelense de dirigir, sem muito sucesso. A campanha da vez, veiculada pela Galgalatz, a rádio musical do Exército, e também em horário nobre nos principais canais de televisão e na telona antes de qualquer filme no cinema, tem o seguinte mote:

Mesmo um dia de sonho pode acabar em tragédia.

Os comerciais, da Autoridade Nacional de Segurança no Trânsito, são de tirar o fôlego e deixar qualquer um arrepiado. Mas, na prática, os acidentes continuam ocorrendo, as pessoas continuam exagerando na bebida antes de dirigir, e a polícia continua sem saber como punir e prevenir novos casos.


Próximo a escolas, dirija devagar e com atenção


Crianças devem descer do carro pelo lado da calçada 


Crianças até nove anos não cruzam a rua sozinhas 

E já que o assunto é direção, deixo aos brasileiros uma pergunta. Podem deixar opiniões nos comentários do blog.



4 Responses to “Olhe para os dois lados”

  1. 1 Fernanda Fig

    Ainda acho que a Lei Seca aqui é mais algo pra inglês ver. Não acho que se pode igualar quem comeu um bombom de licor a um sem-noção que engoliu uma garrafa de vodka pra dirigir. É sancionar, deixar passar umas blitze na TV e pronto, tá tudo esquecido, como é praxe no Brasil.

    Já escrevei aqui uma vez e escrevo de novo: não adianta criar mais leis se as que estão aí não funcionam. Não vejo reais punições pra quem realmente mata no trânsito e pra esse monte de louco com volante na mão que não respeita nem quem dirige e muito menos pedestre, sóbrio ou não. E quem leva a culpa é o cara que comeu o bombom…

  2. Gabriel, fico tentando imaginar algo que possa ser pior que o transito do Brasil… Por mais que tenha visto imagens, e lido histórias como a sua, ainda não consigo me ver dentro da situação. Vivo em São Paulo, onde um acidente em uma marginal (como na ultima sexta) praticamente para uma cidade inteira. Causando visões terriveis de gente que sai do carro e pira de vez, várias pessoas surtando dentro de um ônibus, isso sem falar nos acidentes. Aqui tudo é uma loucura pelo número absurdo de gente e carro. Se ai tiveram um treinamento pelas guerras e conflitos, aqui tivemos o treinamento da convivência com mais pessoas do que uma pessoa suporta.
    Felizmente leis como a leia seca, tendem a ajudar um pouco na melhora disso tudo.
    Um abraço

  3. 3 Victor Grinbaum

    A selvageria do motorista (ou deveria escrever “mautorista”?) israelense é notória. Constatei-a in loco.
    Explicações? Acho que qualquer explicação é simplória por si só, e enveredaríamos pelo caminho da sociologia de botequim. É o mesmo que tentar explicar a selvageria do motorista carioca (disparado o pior do Brasil). São selvagens porque são selvagens e pronto! E cabe ao estado reverter isso com educação.
    De qualquer forma, é de se lamentar. pelas vítimas em primeiro lugar, e pela solidariedade que deveria ser apanágio dos israelenses.


  1. 1 Propaganda política? « CARTEIRO SEM POETA

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