Febre de novembro

05nov08

Vem novembro, começa o frio, as chuvas. E vem a febre de novembro: por um lado, atos políticos e da população em memória ao assassinato do ex-premiê Yitzhak Rabin, que aconteceu no começo de novembro de 13 anos atrás. Por outro, discussões sem fim sobre o assassino, Yigal Amir. Reduzir a pena? Tirá-lo da cadeia? Pode se casar? Pode ter filho?

Blá-blá-blá.

No ano passado eu estava na mesma praça de anos antes, cobrindo o ato pela RFI e acompanhando os discursos. O filho de Yigal Amir tinha nascido uma semana antes. O dia do ato, então, caiu com o brit milá (circuncisão ritual) da criança – coincidência que chocou os que estiveram no ato em comemoração à paz que acabou com três tiros no premiê.

O filho do Rabin, no discurso diante de milhares de pessoas, disse então que se sentia chocado ao perceber que já se admite, na sociedade de uma década mais tarde, falar sobre a liberdade do Amir, apesar de ele ter sido condenado a prisão perpétua e de o caso ter, na época, movido e comovido os israelenses – quem não tem alguma lembrança das centenas de pessoas chorando sobre velas?

Mesmo assim, o tema segue vivo no cotidiano daqui, e é relembrado quando chega novembro. Em um exercício de “e se…?”, os israelenses tentam adivinhar o que seria hoje do país e dos vizinhos se o premiê que assinou o primeiro acordo de paz com os palestinos não tivesse sido morto.

Trabalhei em um hotel que leva o nome do Rabin (como dezenas de praças, ruas, escolas…) e tem uma sala especial onde se projeta um filme que levanta essas e outras questões que martelam a consciência coletiva israelense. Respostas não são direito de ninguém.

No fim de semana passado, o último antes do aniversário do assassinato, os dois principais canais de televisão de Israel, o 2 e o 10, anunciaram uma entrevista feita com Amir de dentro da prisão, onde ele em tese não tem permissão de usar o telefone depois de ter ameaçado de morte o vizinho da esposa. Trechos da entrevista chegaram a ir ao ar na quinta-feira.

Ele descreve como surgiu a idéia de assassinar Rabin, conta que esteve em um casamento em que o ex-premiê também estava e que sentiu que poderia tê-lo matado ali mesmo. Diz ainda que líderes de direita, entre eles Ariel Sharon, que seria premiê anos depois, o influenciaram na tomada da decisão:

Se eu tivesse apertado a mão (do Rabin), poderia facilmente ter atirado nele, se quisesse. Eu estava armado. Vi que era tão fácil, e disse para mim mesmo que em alguns anos me arrependeria se não o tivesse matado.

Todos que entendem o Exército (influenciaram na decisão de cometer o assassinato), como Ariel Sharon, Rafael Eitan (ex-chefe do Estado maior do Exército e ex-ministro) e Rehavam Ze’evi (deputado direitista assassinado em 2001). Todos disseram que os acordos de Oslo eram um desastre.

A idéia de exibir a entrevista provocou furor em Israel. Com a febre de novembro, a sociedade se volta para si mesma e ataca iniciativas como essa – o que este blogueiro condena, porque defende a liberdade de expressão e o direito (e dever) da imprensa de publicar. Seja como for, a entrevista anunciada à exaustão foi cancelada, primeiro no Canal 2, depois no concorrente.

O primeiro-ministro em exercício, Ehud Olmert, correu para elogiar a atitude dos canais. Disse que a transmissão da entrevista poderia ferir os sentimentos do público, especialmente pela proximidade do dia em que se relembra o assassinato. Muita tempestade em copo d’água para uma entrevista de dois minutos e meio.

Yigal Amir, faz tempo, se transformou em um astro. Não são poucas as teorias de conspiração ao redor do assassinato. Embora ele mesmo tenha confessado – e repetido à exaustão que não se arrepende – existe um site que garante, “com provas”, que ele não foi o assassino.

O triste de toda essa história é perceber que hoje existe o mesmo clima, na direita extremista israelense, daquele na época do assassinato. No domingo, dia da reunião semanal do gabinete, o chefe do Shabak, Yuval Diskin, disse que os colonos podem estar preparando uma guerra. Uma guerra!

Ontem, no ato político de lembrança do assassinato, o ministro de Infraestrutura, Binyamin (Fuad) Ben-Eliezer, disse que o próximo assassinato político está a ponto de acontecer. O ministro de Segurança Interna, Avi Dichter, concordou. Quando Fuad disse, em 1995, que um assassinato poderia ocorrer, Rabin, ele mesmo, respondeu:

Será que um judeu mataria outro judeu?

Já vimos que sim.



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