Carteiro número dois às ordens

16nov08

(Ou: Uma nova porta no topo da escada aos domingos!)

Direto de Salamanca, Espanha

MarrocosBem, como é de praxe, antes de tudo, gostaria de me apresentar aos leitores do blog. Como vocês viram aí ao lado, venho me juntar ao Gabriel, amigo de momentos diversos vividos nesta região bagunçada denominada Oriente Médio, e tentar trazer um pouco mais do que permeia a vida e a política nesta área. O Gabriel não mencionou, mas estou atualmente em uma encruzilhada.

Há cerca de um ano, enquanto estava trabalhando e vivendo em Londres, decidi que ia tentar passar um ano viajando. Mais do que conhecer lugares novos e marcos turísticos, a intenção da viagem era vivenciar pessoas e culturas diferentes. Importava-me mais estar com pessoas do que necessariamente sair com uma lista de coisas para ver e fazer em cada lugar novo (ou velho) por onde passaria.

Este meu novo périplo global começou já há quase seis meses e me levou a passar por quatro continentes até agora. Depois de idas e vindas, eis que me encontro neste exato momento em Salamanca, na Espanha. Meu destino era o Marrocos hoje à noite, mas como vida de viajante é imprevisível, uma mudança súbita de planos me fez em um ímpeto decidir que não podia deixar este canto da Europa sem espiar o que se passa na antiga metrópole.

Assim, rumo amanhã para Lisboa, para uma passagem rápida, para sentir um pouco o ar do império de outrora. Meus planos, salvo contratempos, são de realmente estar no Marrocos até quarta ou quinta-feira. E na verdade é isso o que mais deveria interessar ao leitor deste blog.

O Marrocos é um país peculiar do ponto de vista geopolítico e geográfico. Está localizado na África, mas praticamente encosta na Europa, tem fronteira terrestre com a Espanha graças aos enclaves de Ceuta, Melilla e outras três pequeníssimas penínsulas e ilhotas, possui um fortíssimo legado francês da época do protetorado e, por fim, é uma das maiores populações judaicas em países árabes – algo entre 3 e 7 mil pessoas.

São números expressivos em se tratando de um país árabe e muçulmano, mas se levarmos em conta que a população judaica do Marrocos já foi de 250 mil, é fácil perceber que estas pessoas são na realidade o resquício da comunidade judaica local. No entanto, o Marrocos é um dos países árabes que na atualidade tem mais boa vontade e espírito de integração com judeus de todo o mundo: o rei até mesmo convidou aos antigos cidadãos marroquinos de religião judaica que retornassem ao país há cerca de três anos.

A maioria dessas pessoas emigrou no passado para Israel, França, EUA e… Brasil. Isso mesmo: Brasil. Grande parte das comunidades judaicas da região Norte do país, notadamente em Manaus e Belém, é composta por descendentes de judeus oriundos do Marrocos, de cidades como Tanger ou Fès.

Mais interessante ainda é notar o papel desempenhado pelo Marrocos nos conflitos envolvendo Israel: o país é uma voz de moderação. Não mantém relações diplomáticas com Jerusalém, mas em contrapartida é um dos principais proponentes do diálogo mútuo e durante anos manteve um escritório de representação em Tel Aviv. Além disso, é um dos pouquíssimos países árabes a permitir a entrada de cidadãos israelenses em seu território para qualquer finalidade.

Meu intuito é conversar no Marrocos com locais e entender um pouco mais sobre o que pensam a respeito do que ocorre no Oriente Médio. Já ficarei contente em entender se os marroquinos se sentem mais parte da África, da Europa (o país já foi candidato a entrar na União Européia) ou do Oriente Médio, que está distante geograficamente, mas tão próximo no ponto de vista cultural.

Pedindo antecipadamente perdão pelo cliché indesculpável, falo com vocês novamente quando estiver “pra lá de Marrakech”.

Abraços e boa leitura,

Samuel (ou Carteiro 002)



2 Responses to “Carteiro número dois às ordens”

  1. Grande apresentação. Toda sorte nesses teus novos planos, e que venham outros.

  2. Fiquei curiosa pra saber como é a vida da comunidade judaica marroquina…Fico feliz em saber que Mohamed VI mantém laços com a comunidade. Que pena que o Marrocos não pode ser considerado referência em vários outros aspectos…. Apesar da pobreza, reza a lenda, que o povo marroquino tem muito apreço, por falta de melhor palavra, pelo rei, devido o recente crescimento econômico do país. Sempre tive curiosidade em saber o que os marroquinos acham da República Árabe Saharawi Democrática? Da Frente Polisário?São assuntos discutidos entre eles?Pela mídia local? A comunidade judaica tem algum pitaco nessa questão?



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