Marrocos – Cena 1: Introdução

29nov08
Vista da Europa a partir do Marrocos

A Europa vista do Marrocos

Direto de Tânger, Marrocos.

BEM-VINDO À ÁFRICA

Engraçado. Quando pensava em vir ao Marrocos eu romantizava um pouco a idéia de que tinha que atravessar de barco da Europa para a África para poder realmente sentir o peso da jornada, de mudar de continente. Talvez isso se devesse a certa frustração por não ter cruzado da Ásia a África por terra alguns anos antes, através do Sinai, no Egito.

A princípio, confesso, fiquei um pouco decepcionado, pois ao chegar a Tarifa, no sul da Espanha, não se podia avistar a África – o nome que ressoa profundo no imaginário – do outro lado do Estreito de Gibraltar, onde o oceano vira mar, na confluência do Atlântico e do Mediterrâneo.

Durante meus primeiros momentos em Tânger – cidade portuária outrora internacionalizada entre França, Espanha, Inglaterra, Bélgica, Holanda, Itália, Portugal e EUA (e que só foi reunificada com o resto do Marrocos meses após a independência do país em 1956, mas permaneceu como interzona até meados dos anos 60) –, precisava ficar repetindo a mim mesmo que “agora estou na África”.

Como se isso fosse me ajudar a interiorizar a enormidade do simples e desinteressante cruzamento de balsa entre a Espanha e meu mais novo continente. Não ajudou. A esplanada ao lado do porto é uma cidade portuária como outra qualquer. Todo mundo fala francês, espanhol e árabe e, apesar da sujeira nas ruas denotar um país realmente subdesenvolvido, nada me indicava uma diferença brutal que gritasse África ou pelo menos Oriente Médio à primeira vista.

Após rodar um pouco, tomei um táxi para a rua onde supostamente deveria estar o albergue local, mas onde sabia que também havia um hotel bem recomendado.

O albergue estava fechado há mais de um ano. O hotel cobrava um preço um pouco mais salgado do que estava esperando pagar. E foi neste momento que as coisas começaram a tomar um rumo inesperado e que me deram um choque de realidade.

Um senhor que se apresentou como sendo da região das montanhas do Rif viu que eu estava olhando o hotel e se ofereceu para me mostrar uma pensão, a qual, segundo ele, tinha uma diária custando uma fração do preço praticado aqui.

A pensão ficava a poucos metros de onde estávamos e tinha uma diária bem mais em conta. Só que alguma coisa não me deixou satisfeito com o local. Coisa de energia mesmo, sem explicação. Agradeci e decidi voltar ao hotel. Na saída da pensão, eis que me deparo com uma foto do enorme domo dourado de Jerusalém.

BEM-VINDO AO ORIENTE MÉDIO

Dando uma de desentendido, fui logo perguntando:

– Que linda essa mesquita. É aqui no Marrocos?

A resposta veio seca e não menos incisiva do que se eu estivesse na Síria:

– Não. Fica em “Phalastin”.

– Nossa! “Phalastin”? Onde é isso mesmo?

– Ah, você sabe… Lá onde tem os “phalestinayin”… Eles estão lutando contra…

– Ah! Sim! Os palestinos! Eles estão lutando com os israelenses… Fica lá então? Perto de Israel?

– Isra… (um monte de grunhidos em árabe que interpretei como sendo algo não muito amável em relação a Israel).

– Certo . E qual é mesmo o nome da cidade onde fica essa mesquita linda, meu senhor?

– Não é aqui no Marrocos. Você tem que ir até o Egito; o Cairo. Fica por lá.

– Fica no Cairo???

– É. Mas tem Meccah não muito longe, que é mais bonita ainda.

– OK. No Cairo. Merci beaucoup. Shukran b’feyz.

Voltei ao hotel e depois de devidamente instalado e de banho tomado, saí para jantar. Aí sim finalmente vi um quê de Magreb, de África. Mercados e medinas, chá de menta, cous-cous, pastéis de amêndoas e encantadores de cobra. Pessoas simples e muita pobreza na rua. Sorrisos fáceis. Cordialidade. Ouvi umas três vezes um bem-vindo ao Marrocos de gente com quem troquei duas ou três palavras na rua.

Da varanda do hotel, vendo as águas do Mediterrâneo e sabendo que ali do outro lado, a só 14 quilômetros fica a Europa, refleti sobre os acontecimentos do dia.

Tânger, na confluência de três mundos, terra-santa da espionagem internacional nos tempos da Guerra Fria, é uma cidade vira-lata: com vista para a Europa, busca no turismo e no contrabando sua fonte de subsistência. Vira as costas para a miséria da África, que mesmo assim insiste em invadir a cidade na sujeira das ruas, nos odores fortes, na sensação de que o selvagem e o proibido estão à espreita.

No entanto, o espírito da cidade não está nem aqui, nem lá.

Perdida na geografia e na história, o grito dos muezzin declara alto e nítido: nossa alma está acolá… a Leste… no Oriente Médio.

Minha primeira noite… na África.



3 Responses to “Marrocos – Cena 1: Introdução”

  1. 1 Diogo

    No Egito, tentei falar sobre Israel. Recebi a mesma reação. O egípcio simpaticíssimo que estava comigo trocou o sorriso por um olhar de desprezo. Perguntei a ele se ele tinha vontade de conhecer Israel. Piorou.

    Acho que foi quando percebi a gravidade que conflitos étnicos e religiosos têm…

    Parabéns pelo relato ;)

  2. 2 pvictor

    Muito bom o relato! Deu vontade de fazer o mesmo percurso, numa próxima vez.

    Agora, é estranho como os países ali do norte não se consideram parte do resto do continente. Acho que a descrição da ansiedade que eles têm de se voltar mais pro norte ainda que você deu cabe exatamente.

    Uma amiga foi ao Egito e também quase foi apedrejada por dizer que estava na África. Eram taxativos: Oriente Médio!

    Quanto à phalastin, vai entender… Lembro-me do taxista Caled, em Jerusalém, que queria levar-me (a mim e uns amigos) para Belém a todo custo, dizendo que deveríamos conhecer de verdade as maravilhas daquela terra árabe (toda ela).

  3. Huahuahua, esses árabes sempre muito rústicos. Pois vejo um post seu por aqui e ainda não postei nada (recém chegada no BRasil, com jet lag após um Dubai – Sampa de 15 horas – agora toquem os violinos).

    Isso me lembra quando perguntei a um amigo libanês se havia algum truque para que eu pudesse sair de Dubai, ir até a Jordânia e pegar um busão até Israel sem ter tchutcho no passaporte na hora de voltar…

    Geeente, o liba ficou bege, me chamou de traidora e quase quebrou tudo. Huahuahua. Acho que alguém precisa de fluoxetina na veia, uhul!

    Adoro Dubai. Super curto um modo de vida regrado em valores islâmicos, sim é verdade. O problema é que a wahabya chegou para ficar – e não suporto isso. Todo muçulmano com valores wahabi acha que Israel tem que queimar na casa do capeta. Aliás, qualquer coisa que não seja wahabi.

    Ô povinho nervoso! Juro, sou uma libanesa calminha. A prova é que estou rebolando para conseguir me enfiar em Israel sem ter provas no meu passaporte! :)



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