Alagamento em Israel?

19jan10

(E mais Haiti…)

Alagamento no kibutz Revivim (foto: AFP)

Alagamento no kibutz Revivim (foto: AFP)

Em um país que não vê chuvas, notícias de alagamentos e de mortes por conta de tempestades, como a de hoje, são raras. Ao todo, sete pessoas morreram em Israel e no Egito hoje, uma segunda-feira molhada nesse canto do mundo.

Daqui da minha janela, em uma rua movimentada de uma cidade satélite de Tel Aviv, vi o resultado dos temporais: congestionamentos, guarda-chuvas, correria… Nos supermercados, os israelenses vão às compras e enchem as sacolas como se não houvesse amanhã!

Mas as chuvas aqui são tão raras que, quando caem, são motivo de comemorações. Há algumas semanas, viajando de monit sherut (uma espécie de lotação regulamentada) para o norte, ouvi do motorista bênçãos e elogios à chuva que caía. Dizia ele, com a concordância dos outros passageiros:

Precisamos que chova assim por um mês seguido!

Como escreveu um colunista do Haaretz, Alex Sinclair, há alguns dias, não se pode reclamar das chuvas. E, por aqui, ninguém reclama, mesmo.

Quando chove, é fantástico. Na verdade (as chuvas) levantam o astral: é o efeito oposto do trazido pelas chuvas britânicas [Sinclair é inglês]. Durante os meses de inverno, há uma sensação palpável de alegria no público quando chove. As chuvas deixam as pessoas felizes. As chuvas deixam o país feliz.

O leitor deste Expresso Oriente precisa se lembrar que a região está assentada em desertos, e que Israel (com o Negev) e o Egito (com o Saara) têm desertos dos maiores do mundo. A região é seca, e a população paga altíssimas taxas de água por aqui – que deve vir mais alta na próxima conta.

Em meio a notícias sobre os alagamentos, os palestinos, na Faixa de Gaza, que também foi alagada, resolveram culpar Israel. Na Cisjordânia declararam situação de emergência. A chuva não foi pouca – certamente não foi medida em milímetros, como ocorre sempre.

Bom, falar de chuvas e alagamentos e de sete mortes no Oriente Médio enquanto o Haiti foi destruído em um terremoto e está contabilizando centenas de milhares de mortos é patético, eu sei. Mas conto o que está a meu alcance.

Se a notícia das chuvas ocupou o noticiário local, o internacional ficou certamente por conta do Haiti – e dos esforços humanitários da equipe de 220 pessoas da delegação daqui (à qual se juntou uma nova equipe hoje). Israel, como contei aqui e em uma matéria no Terra, montou um hospital de base em um campo de futebol em Porto Príncipe.

Matérias em jornais (o Haaretz tem uma correspondente no Haiti) e na televisão mostram o trabalho dos soldados e médicos para resgatar e tratar haitianos feridos no terremoto. O parto de um bebê prematuro foi feito pelos médicos israelenses – e a criança deverá se chamar Israel.

A palavra em hebraico do dia é chuva, גשם (lê-se guêshem). Da mesma raiz (no hebraico, assim como no árabe, as palavras são formadas por raízes) vem a palavra הגשמה (lê-se hagshamá), realização – a origem da relação entre as duas palavras deve estar na tradição agrícola dos hebreus, palpite meu. Outra da mesma raiz: גשמי (lê-se ghuishmí), tangível, concreto.

(Amanhã, se tudo correr bem, vou fazer um post especial sobre os esforços de Israel no Haiti)



2 Responses to “Alagamento em Israel?”

  1. 1 Mario

    Israel atravessa o mundo para ajudar o Haiti, enquanto mata os palestinos, seria ironico caso não fosse patético.

  2. Ao que parece o deserto também alaga..! :)
    Muito bom te ter de volta escrevendo!


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