O futuro a quem pertence?

25jan10

Uma conversa com um grande amigo me fez pensar em algumas questões sobre o futuro do Estado de Israel. Nota-se por aqui uma patente falta de liderança no país. Além disso, há uma apatia evidente nas novas gerações. O país, que nasceu há pouco mais de 60 anos, está criando jovens cada vez menos envolvidos e interessados no sionismo e nos ideais que construíram Israel.

O único político da época da criação do Estado ainda em atividade é o atual presidente Shimon Peres, com quase 90 anos. Um líder de fato, apesar do currículo de derrotas políticas. Não à toa ele foi o único que conseguiu resolver o impasse diplomático criado com a Turquia pelo vice-chanceler Dany Ayalon há duas semanas. O atual premiê, Binyamin Netanyahu, que nasceu em 1949, é o primeiro (e até o momento, o único) israelense nascido depois da fundação do Estado a ocupar o cargo.

A apatia dos jovens israelenses pode ser evidenciada em qualquer conversa de bar. Falar em sionismo provoca bocejos. A história do jovem Estado não interessa aos mais novos. Na outra ponta, os sobreviventes do Holocausto, o evento que ajudou a impulsionar a partilha da Palestina britânica em 1947, estão morrendo.

Fico imaginando Israel dentro de vinte ou trinta anos. O cidadão médio não vai ter muita ideia de quem foi e o que fez David Ben Gurion, cuja estátua enfeita todas as entradas do aeroporto internacional que leva o nome dele.

Certamente, em vinte ou trinta anos os últimos sobreviventes já terão morrido – por velhice, mesmo – e a educação sobre o extermínio de judeus na Europa será feita com base apenas em documentos e vídeos, sem o componente emocional de uma conversa com quem saiu vivo de algum campo de concentração nazista.

Quem tinha 15 anos no final do Holocausto acabava de completar 30 quando Israel capturou Adolf Eichmann, na Argentina, e o julgou em Jerusalém. Toda a comoção por trazer o nazista ao jovem Estado judeu hoje não faria mais nenhum sentido.

Ben Gurion sonhava ver Israel como qualquer outro país, apesar de ser o único Estado judaico no mundo e de todas as outras peculiaridades dessa terra. Aos poucos, o sonho do primeiro premiê vai se tornando realidade – ou pesadelo: os índices de prostituição, de crimes urbanos e de violência doméstica (apenas para citar alguns exemplos) no país estão aumentando. Há até gangues neonazistas. Tudo isso influenciado pela política de imigração, por um lado, e pelo efeito panela-de-pressão ao qual os israelenses estão submetidos.

E, como em qualquer outro país, os israelenses estão mais preocupados em levar adiante a própria vida, ganhar seu dinheiro, conquistar seus pares, realizar-se profissionalmente etc do que em resolver de fato o conflito com os vizinhos – os palestinos, os árabes, os iranianos. Não saem do perigoso estado de negação em que estão nas suas bolhas, enfim.

O conflito (digamos que se trata de um conflito, ok?) é uma besta adormecida, que de tantos em tantos anos se espreguiça, sai da hibernação e estampa manchetes no mundo todo. Na prática, contudo, a briga continua ainda sem solução.

O resultado é triste, e afeta a vida diária dos povos da região mais do que eles gostariam de acreditar que afetaria. Em uma situação de paz verdadeira, um bloco econômico no Oriente Médio poderia ser criado, se tornando forte e produtivo. A regiao é a maior produtora de petróleo do planeta. Israel tem tecnologia de ponta – em medicina, por exemplo – que poderia exportar aos países vizinhos.

Mas Israel não está pronto para uma paz verdadeira com os vizinhos. Embora todo israelense deseje viver em paz, abrir mão da cultura militar, por exemplo, não seria fácil. É cool para os rapazes israelenses onde esteve e o que fez durante os três anos no Exército. Além disso, a maioria dos israelenses torce o nariz quando fala-se em palestinos ou até mesmo sobre o idioma árabe.

Resulta então que a apatia se mistura com um sentimento de ignorância sobre o sujeito que mora ali ao lado, sua cultura, seu idioma, sua religião. E a crítica se estende aos vizinhos: não pode dar certo a mistura do desejo de carrer Israel do mapa com a cultura de ódio ensinada nas escolas e com ditaduras teocráticas que calam os moderados.

Enfim, um desabafo.

(Links neste post são sugestões de leitura)

O termo em hebraico do post de hoje é futuro, עתיד (lê-se atid).



8 Responses to “O futuro a quem pertence?”

  1. 1 Ricardo Levi - Florianópolis

    É preciso resgatar o “Espírito dos Pioneiros” e instilá-lo na juventude.

    Eles construíram Israel com o suor dos músculos, mas com a inteligência do Idealismo e da Ética.

    Por isso, Israel não foi feita para ser um país como os outros. Fazê-la, construí-la da forma como foi feito, já é diferente dos outros.

    Israel é um experimento humano contemporâneo de primeira grandeza. Construir um país do nada e ainda ter a chutspa de dar certo!

    Creio que muito do anti-sionismo vem da inveja da conquista, dos sucesso dos resultados, do nível de vida. É só ver o contexto econômico, tecnológico e social dos países ao redor.

    Os pioneiros eram permeados de idealismo, humanismo e socialismo. Não queriam apenas salvar a pele, mas fazer a diferença. Disso resultaram sua força, sua sobrevivência aos inimigos e seu sucesso

    Agora que temos o nosso país, temos que fazer o dever de casa e conquistar a normalização das relações. Por que Israel não considerou adequadamente a Iniciativa Árabe de Paz de 2002, proposta por 57 países árabes e muçulmanos?

    Não temos que fazer a Paz só para termos tranquilidade de conseguir a parnassá cotidiana. Por que sermos apenas mais um país corrupto, egoísta e poluidor?

    As tradições, a cultura e a espiritualidade Judaicas são nosso verdadeiro tesouro, e precisamos investi-lo.

    Sua essência são a Ética e o Humanismo judaicos para a construção de uma sociedade justa e ecológica.

    Tenho um vizinho palestino. Eu disse que para fazer a paz é necessário Respeito.
    Ele complementou: e Justiça.

    Respeito e Justiça: eis a tarefa pela frente.

  2. Concordo com todos comentários e acrescento que ,na minha opinião , o motor que impulsiona esta falta de comprometimento com o seu próprio futuro é fruto de uma crise de identidade e acho que as imigrações só amplificaram mais este problema.
    Acho que a volta do velho e bom ensino da verdadeira educação judaíca pode dar uma nova base para um sionismo moderno de idealismo nacional, porém Israel tem de se perguntar que nação quer ser e com que pessoas ela pode contar para construir o futuro.

    um abraço
    shalom le kulam
    Adriane

  3. Pois e Gabo, acabo de ler em suas palavras de forma organizada o que sempre me tira o sorriso quando viajo de noite e alguem estende a mao na janela do meu carro no Sul de Tel Aviv.
    Mazelas do Capitalismo meu caro, chegam a todos:-)

  4. 4 abram david sztutman

    texto que chega a realidade,mas com alguns senoes..A verdade e Israel ate os anos 90 e Israel depois de 1990……….!!!!!A quem cabe a culpa??????
    facil de saber…………quem deu o OK de entrada a torto e direito (???a troco de dinheiro??)a imigrantes dentro da lei de retorno?sem fazera triagem pra saber quem e quem.Lembro-me que em meados de anos 90 pra receber o OK precisava de passar por medico de familia,psicologo e cartas de recomendacao ao rabino e ainda fazer provas concluentes de estarem dentro da lei do retorno…………..E…….falando das grandes imigracoes..foi feito isso???????veio o que veio………………….como vc bem disse….prostitutas,assasinos,ex presidiarios,toxicomanos procuradas pela policia ou nao…………e ainda com o OK do rabino local e de alguns policos incluso prefeitos que queriam o voto qdo necessario………..vergonhoso!!!!!
    Como pode-se avaliar por exemplo a imigracao turca e temani de ano 42—-48———50 com a de 1993??????Quantas estacoes de radio e TV eles tem????jornais???revistas???Qual o numero de autos de luxo e casas que esses tem????????
    E so ir as bancas de jornais………ligar sus TV com canaaais fechados….olhar as ruas e verificar os caminhoes o que escrito esta e em q lingua……….ao receber panfletos leia se pouder….pois ja nao esta em hebreu……….entre em um pequeno supermercado..e leia …….Daonde veio tao rapido tanto dinheiro pra montar o que foi montado em menos de 15 anos????????/
    Enfim eu ainda acho que eu desci em aeroporto errado!!!!

  5. 5 Debora

    Tirou as palavras da minha boca!

  6. 6 Diogo

    A newsweek de algumas semanas atrás trouxe um texto numa vibe parecida com a sua. Fizeram uma pesquisa em Israel e descobriram que os israelenses nunca quiseram tão pouco a paz — porque, sem atentados terroristas, ela não parece mais urgente.

    Te recomendo a leitura! Era da Newsweek com o terrorista nigeriano na capa.

    Abraço!

  7. 7 Leitor

    Excelente texto! Sugiro, sobre o mesmo assunto, a leitura de

    Is there a future for Israel?
    by Lowell Feld

    http://www.dailygusto.com/news/september/israel-090803.html

    Abraços e continue com o bom trabalho!

  8. hj eu vivo (literalmente) em contato com os 2 lados…. e andei um pouco triste pois tudo isso afetou até a mim, pessoalmente. não posso isso ou aquilo pq é perigoso…. . e, sou café com leite. para mim, não há lados. há pessoas. me encanta a docilidade e a leveza sincera com que coloca suas opiniões. hj mesmo falei sobre isso: nunca deixe de lutar pelo que acredita, mas lute com as palavras do coração, e não com as armas da mente. :*)


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