Não tem matzá!

03abr10

Foi bobeada minha. Comecei o dia ao contrário, cheguei em casa antes do horário normal de um ser humano levantar da cama. Antes, um chocolate geladinho para adoçar a madrugada. Moto e pensamentos. Na porta de casa, descobri que pelo jeito algum dos meus vizinhos anda surrupiando meu jornal – eu esperava encontrar uma pilha de notícias velhas na porta. Nada.

Entrei, sem jornal, pensando sobre a mudança da política do prédio. Agora, em vez de algum estrangeiro ilegal esfregar e varrer o corredor e a escadaria, cada um tem que limpar sua área externa – o que na prática significa que ninguém limpa nada. Uma zona.

Dentro do apartamento, a situação não estava melhor. Pilha de roupa suja esperando a fada mágica. Outra pilha de roupa suja, e eu fiquei me perguntando porque não fiz só uma. Outra mais. A cama, naturalmente, desarrumada. O cinzeiro cheio de pontas de cigarro. E outro cinzeiro! Jornais abertos, com notícias marcadas espalhados em cima da mesa. E da outra mesa.

Tive tempo de ligar o aquecedor elétrico para tomar um banho correndo, vestir a primeira camiseta que encontrei ainda limpa no armário, passar um café brasileiro, achar o endereço no GPS e subir de volta na moto. Essa minha vida de solteiro desregrado vai me estragar…

Palestra em um moshav perto de Netania. A brasileiros, argentinos, uruguaios e mexicanos falei, fazendo tradução simultânea de mim mesmo, sobre sionismo e pós-sionismo, contei minha experiência de imigrante para a Terra Santa. Fiz referência a um post que escrevi há alguns meses no blog, depois de uma pergunta que repetia o título do desabafo.

Pelo menos, almoço. E almoço de moshav é um respeitável almoço, mesmo durante Pessach. E de repente, minha mão virtual bateu virtualmente na minha testa… virtual e pensei que hoje, quase fim de Pessach, estou ainda sem matzot, o tal do pão ázimo. “Não faz mal, compro mais tarde”.

Deu tempo de rever uma amiga-irmã e a família dela, ouvir histórias do Bom Retiro e visitar meu mestre-mór nesta profissão deliciosa e ingrata. Mas o corpo reclamou, e eu percebi que precisava comer alguma coisa. Pensei de novo nas matzot, me despedi, subi na moto e fui ao supermercado mais próximo.

Não tem matzá!

Não pude acreditar. Já tinham avisado que poderia faltar matzá no mercado este ano, mas eu não levei a sério. Foi bobeada minha, claro.

Hoje, pensando bem, acho que o aviso, na televisão, com imagens óbvias de fábricas acelerando a produção para alcançar o feriado, foi o culpado pela falta do bolachão: os israelenses devem ter corrido desesperados para comprar e estocar. Quero ver o que vão fazer com as sobras

O jeito foi matar a fome com um sanduíche. Mas ninguém vende sanduíche durante Pessach, porque pão é proibido. Ha! Quem disse que o brasileiro inventou o jeitinho não conhece o jeitinho israelense. Num café de grife, encontrei um sanduíche de grife, a preço de grife, feito com farinha de matzá.

Chega. Está tarde. Já devorei o sanduba (não é tão ruim quanto parece, de fato é bem bom). Agora preciso dormir. Amanhã começa outra semana curta. Diferente da semana passada, que teve só um dia útil, essa começa com metade. Depois, um dia e meio de feriado. E aí, volta à normalidade. E ao pão.

Chag sameach. Boa Páscoa.



10 Responses to “Não tem matzá!”

  1. 1 Fernanda Fig

    Como assim?! Não lembrava que seu blog tinha voltado à ativa!! Tenho muita coisa pra colocar em dia. E já tá precisando atualizar de novo, né? Pesach já acabou faz tempo, hehehe

    É, amigo, vida de solteiro dá trabalho, né?

    Então, qdo eu tava por aí procurando um kibbutz, me falaram dos moshav, nunca tinha ouvido falar. Eles também aceitam voluntários, né? Dei uma pesquisada rápida na época, mas me disseram que a maioria era religiosa. Não sei se procede, mas… desencanei!

    Beijos, hasta la vista

  2. 2 Laura

    Estou te acompanhando viu GABO!! ;)
    Nossa mas esse apto tá muito desarrumado..rsrsrs
    á morando com quem? Deonde vem os cinzeiros sujos vc não fuma !!?
    BJS & SDS

    • Laurinha, está desatualizada! Fumo sim. São meus, estou morando sozinho. E o apartamento já está melhor. Dei um “tapa” nele esses dias!

  3. 4 Andy Mignot

    Queria experimentar matza!!!:)

  4. 5 Libanesa

    estara por ai em junho? quero passar meu aniversario em Israel. :)

    • Opa! Eu devo estar aqui, sim. Vem!

  5. 7 Ila

    Ok, eu so como matza em pessach, mas em qual cidade vc ta q nao tem restaurantes e lanchonetes “treif”? Bnei Brak??? hehehehehe
    bjs!

    • Eu também não como chametz! Mas sanduba (ou pizza) são sempre os salvadores pra esse tipo de situação!

  6. 9 Tati

    Inacreditavel, mas aqui em casa tb nao comprei matzot… Mas estou vivendo bem de iogurtes e quijos…
    To com saudades…

  7. 10 Paula

    Tem pita na minha casa… quem precisa de matza???


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