É shabat: fique em casa

30maio10

Contei no Facebook, na sexta-feira, que precisei tomar um táxi em Kiriat Shmona, no extremo norte de Israel, bem perto da fronteira com o Líbano, para voltar para casa em Ramat Gan, na região central do país. Foram 120 quilômetros, duas horas de viagem batendo papo com o motorista druso e a conta salgada de 800 shekels, ou 210 dólares.

Desde já, esclareço: não saiu do meu bolso, já que eu estava no norte a trabalho.

Não faz mal. A questão não é quem pagou ou se eu me planejei bem ou não, como alguns escreveram na discussão que gerou até hoje 33 comentários e dois “likes” lá no Facebook. A questão é o absurdo de interromper completamente o transporte público – um direito civil básico – em todo o país por conta do shabat.

Cheguei na estação central de Kiriat Shmona poucos minutos depois das 4 da tarde da sexta. O shabat começaria três horas depois. Mas o local parecia uma cidade-fantasma. Um motorista da Egged (a empresa local de ônibus interurbanos), ao me ver chegando com mala e cara de perdido, riu e disse que os ônibus já não estavam mais circulando.

Como assim? Então por causa de uma minoria ortodoxa, que impõe e faz as leis de acordo com as próprias vontades e com o selo da religião (como eu lembrei no bate-papo com os meus amigos do FB, nenhum partido consegue montar coalizão sem a participação dos ortodoxos) eu preciso ficar “preso” no fim do mundo ou pagar uma fortuna de táxi para voltar para casa?

Não, não me parece democrático.

E não é. Apesar de se orgulhar de ser “a única democracia do Oriente Médio”, Israel é uma democracia… judaica, o que, como alguém bem lembrou na discussão do Facebook, parece conter uma contradição perigosa. Não dá pra ser democrático e judaico ao mesmo tempo.

O resultado é: a democracia acaba quando as leis judaicas começam. E elas estão por toda parte. Judeus laicos e seguidores de outras religiões ficam sem transporte público no shabat. Árabes e cristãos precisam seguir as leis dietéticas da kashrut. Quem não dá a mínima para religião fica sem programação na televisão local durante alguns dias do ano. E assim vai…

Um país verdadeiramente democrático, apesar de judaico, deveria permitir que as minorias (ou a maioria laica) tivessem o mesmo direito de todos. Afinal de contas, se ônibus circulam no shabat, só a população laica vai utilizá-los.

Para os haredim, contudo, isso torna a empresa “impura”. Veja aqui um cartaz colocado em Mea Shearim, bairro ultraortodoxo de Jerusalém, contra a Egged. Se alguém quiser me ajudar a ler e puder traduzir, agradecemos (não consigo ler direito pela qualidade da foto). No cartaz os ônibus da Egged aparecem passando por cima de uma multidão de ortodoxos…

Em um ponto da discussão, alguém disse que os motoristas têm o direito de descansar no shabat. Claro que têm! Eu, como jornalista, também tenho. Garçons,  frentistas, médicos, recepcionistas em hoteis etc etc etc também têm. Todos eles trabalham no shabat, também em Israel. E adoram isso, porque no shabat paga-se 25% a mais.

Enfim, a discussão não parece ter um fim. Para acabar, em um apelo para quem quiser comentar, vou usar o que o meu xará, o Zé, escreveu lá no Facebook:

Argumentos que não avançam o assunto não melhoram seu entendimento e não criam soluções melhores:
1) usar o Brasil como exemplo de democracia, sem entender o que realmente significa democracia.
2) desdenhar o argumentador com frases do tipo “se não está satisfeito, volte pro Brasil”, ou “aqui é assim. É um país judaico. Quer outra coisa, vá a outro lugar”, como se isso fosse uma verdade inerente (afinal, ela não é explicada) e de opinião geral.
3) achar que essa é uma questão de respeitar ou deixar de respeitar religiosos e/ ou seculares. Não é esse o problema. Religiosos me respeitam, eu respeito religiosos e no fim das contas, quem tem seus direitos atingidos sou eu. Se houvesse ônibus no shabat, se eu pudesse casar com quem quero, se eu pudesse comer o que quisesse, não deixaria de ser mais ou menos respeitoso aos religiosos do que eu sou.
4) argumentos do tipo “Somos um país judaico, portanto devemos ser assim e pronto”. Decidam-se: ou bem somos um país, ou bem somos um shtetl da diáspora. Para uma vila medieval, leis teológicas draconianas fazem sentido. Para um país, ele causa danos irreparáveis (como uma cisma entre religiosos e laicos e às vezes guerras civis). Não se pode administrar um país moderno baseado em leis medievais. (E sim, o judaísmo é plástico e elástico, e essas leis não vieram dos céus. Vieram de tribunais rabínicos da Idade Média e eram excelentes para o modo de vida da Idade Média – mas esse comentário foi estritamente aos teólogos “pick and take” de plantão, que ainda acham que o país deve ser governado por rabinos).
5) dizer “formem uma coalizão e mudem a lei!” Isso é uma tautologia baseada na teoria de que Israel é uma democracia absoluta. Não é.

*Obrigado a Anne-Sophie Cardinal, Daniel Schattan, Daniella Azulay, Eliane Segoura Barzilay, Elke Aronson, Fabio Szperling, Fernanda Figueiredo, Gabriel Paciornik, Gladis Berezowsky, Ilana Lerner Kalmanovich, Judite Orensztajn e Luiz Eliezer Sztutman pela acalorada discussão – uns com mais e outros com menos respeito, contudo! [UPDATE] E o número de imputs na discussão continua crescendo…! Já são 41.



8 Responses to “É shabat: fique em casa”

  1. 1 Jose

    Não li o seu artigo ate ao fim porque me pareceu verdadeiramente egoísta e despropositado, uma reacção de menino mimado. O Shabbat e um momento sagrado para um judeu e sendo assim e normal que em Israel este seja celebrado de forma muito vincada. Antes de falar do Shabbat em Israel era preciso pensar no que outras religiões tem que passar em países de religião católica ou outros. Experimente apanhar um taxi em Lisboa no dia 24 de Dezembro, experimente ter que aprender em escolas cheias de crucifixos mesmo quando Cristo para si não existe. Israel e um pais de Judeus e o Shabbat e o momento de união de todos os Judeus no mundo em geral e em Israel em particular. E normal que tudo esteja parado nesse período porque deus criou o mundo em seis dias e ao sétimo dia descansou, e esse dia e Shabbat…

  2. Eu entendo as dificuldades e essa discussao pode ir muuuuuito longe, mas o que eu nao entendo é:
    -Israel é um país judaico correto? Foi fundado para ser estado judeu e suas leis foram e sao baseadas na religiao judaica, isso foi um consenso na época correto? kashrut, o shabat como dia do descanso, a bandeira que representa a abertura do mar vermelho e os feriados judaicos. Nao dá pra ser um país democrático e judaico ao mesmo tempo, isso é meio hipocrisia, mas se Israel é um país judaico e para os judeus ou pensando neles, o único estado judaico porque a pressao de querer que Israel seja como todos os outros países do mundo?!? Para isso existem todos os outros países do mundo ué.
    Já andei muito a pé qdo morava aí por ter perdido o horário do ônibus e sei o qto pode ser chato, mas sinceramente nao concordo!
    Judaísmo ortdoxo, secular, ashkenazi, sefaradi, liberal, conservador and so on…o judaísmo tem tantas linhas que seria praticamente impossível entrar num consenso, mas o shabat é consensual, ainda q a grande maioria da populaçao nao guarde o Shabat ninguém discorda disso, Gabo é tao difícil viver fora de Israel e guardar o Shabat e comer Kasher, é td tao caro, e escasso, é tao difícil conseguir um emprego onde nao se precise trabalhar de sábado e nos feriados judaicos, dar desculpas, pedir férias e afinal quem precisa de um funcionário que nao pode (deve) trabalhar tantos dias no ano? Nao dá pra se programar diferente?
    Essas sao as leis de um país sobretudo judaico, se todos os judeus um dia decidirem que nada disso é mais necessário, (kashrut, shabat e as festas judaicas ou as leis “arcaicas” da Torah) entao talvez o judaismo tb nao seja mais necessário ou importante, ou Israel, ou um estado judaico, ou…ou….nós enfim entao seremos como os “outros”!
    Tentei nao ser chata e nem radical, será q consegui?!?

    Um abraço;

  3. 3 Paula

    Fiz uma redacao aqui no ulpan sobre esse assunto, defendendo justamente o direito de trabalhadores, laicos, arabes, turistas, de terem transporte publico no shabat, mesmo que em horarios reduzidos! Quase fui morta a pedrejadas! Hahahaha! Dificil mudar se ate quem chega de gaiato no navio nao quer ouvir sobre as opcoes possiveis…

  4. 4 Danielle

    Excelente Gabriel,abordagem perfeita!Parabens e nao pare:))bjs

  5. 5 Diogo

    Me lembro de que, quando estive em Israel, os piores dias da viagem foram os que coincidiram com o shabbath. Era tudo mais difícil e eu ficava me perguntando se, como viajante, eu deveria realmente ser afetado por restrições religiosas que não eram a minha.

    Como você mesmo deixa claro no texto, esse não é nem um caso de uma lei imposta por uma maioria que não se incomoda com as minorias. É uma minoria se impondo, certo?

    Está bem entendido que Israel é um país judaico, uma condição bem específica que não permite comparações a torto e a direito. Mas “democracia” é um conceito genérico, então, e igualmente não se aplica.

    Muito pertinente a discussão, e cheia de meandros também! Vamos ver aonde vai dar.

    Um abraço, Diogo

  6. 6 Marcelo Estraviz

    muito bom gabo! compartilhei no buzz e tenho certeza que amigos também comentarão um bom debate a respeito.

    e sim! continue!

    abs,

    estraviz

  7. 7 Fernanda Fig

    Adorei o post e adorei o balanço conclusivo do seu xará, é muito verdadeiro. Acho que é por aí que a reflexão deve caminhar, mas lamento que a massa se apegue aos supostos argumentos religiosos pré-fabricados… Parece que é proibido questionar, quando o questionamento é parte da própria natureza judaica. Tão contraditório quanto um estado religioso! ;)

  8. 8 Maria

    concordo e adoro a tua defesa, e exposição de idéias!!!!!! quando fala, é verdadeiro e coerente!!! não páre, não páre!!! :)


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