Propondo um tabu

17jul10

Faz tempo que eu não escrevo por aqui, mas a correria dos meus feitos e desfeitos do verão não tem deixado, mesmo. As ideias e pensamentos continuam em fervor, mas o blog ficou de lado. Volto hoje com um texto sobre uma proposta que surpreende – não pelo teor, mas pela fonte.

O suplemento de fim de semana do Haaretz discute, a cada sexta-feira, questões da sociedade israelense. Leitura de banheiro, se é que você me entende. Daquelas que exigem tempo e tranquilidade, e que merecem atenção. Semana a semana, os textos trazem análises e opiniões importantes sobre o que faz as notícias por aqui – e por aqui tudo faz notícia.

Esta semana, contudo, a matéria de capa, assinada por Noam Sheizaf, autor do excelente blog Promised Land, discute um tabu. Ilustra a sugestão de que os palestinos da Cisjordânia – o território que fica entre o Jordânia e o Estado de Israel – devem receber cidadania israelense, direitos civis e obrigações consequentes.

Não seria tabu se não viesse de quem vem: apesar de ser comum entre esquerdistas, a ideia apresentada pela matéria de Sheizaf vem de direitistas: membros de partidos com o Likud, do premiê Netanyahu, e líderes de colonos judeus assentados em território palestino. Por isso surpreende.

A capa do suplemento estampa uma bandeira mista de Israel e Palestina, com a Estrela de David, o triângulo palestino e as cores azul-e-branca, vermelha-e-verde. E a legenda: “If you will it“, em clara menção à frase célebre do criador do sionismo, Hertzl: “If you will it, it’s not a legend“. Na abertura do texto, uma imagem mostra uma cédula de identidade israelense com a foto e os dados de Mahmud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina.

O texto mostra, então, que vem ganhando apoio na direita israelense a ideia da solução de Um Estado – em contraponto à solução de Dois Estados (Israel e Palestina na Cisjordânia e Faixa de Gaza), ou à de Três Estados (Israel, Palestina na Cisjordânia e Hamastan na Faixa de Gaza). É um tabu, que pouco a pouco vem tomando forma e consistência entre os cidadãos.

Mas há o que pensar – e a solução é cheia de lacunas, como menciona o autor do texto. Dar cidadania e direitos a 1,5 milhão de palestinos vivendo na Cisjordânia significa aumentar consideravelmente a porcentagem de árabes na população israelense.

Não que eu tenha nada contra, mas considerando o crescimento demográfico dos árabes – ainda maior que a dos judeus ortodoxos – em alguns anos é inevitável que essa “grande maioria”, como o texto define, eleja um primeiro-ministro árabe. É um problema? Para a direita, isso é um pesadelo.

De toda forma, a ideia de derrubar fronteiras, e dar aos palestinos o direito de “tomar sorvete na praia de Tel Aviv” parece interessante. De novo, depende para quem você pergunta. Um esquerdista vê isso como sonho. Um direitista não pretende passear na orla do mediterrâneo ao lado de pessoas que outrora chamava de terroristas…

Deixo a pulga atrás da orelha de vocês. Leiam o texto. Discutam.



2 Responses to “Propondo um tabu”

  1. Olá,

    Sou autora do blog Óbvio e Atual. Achei seu blog no Mundo Pequeno, e estou aqui pra propor uma parceria.
    Meu blog fala sobre atualidades em geral e estou selecionando correspondentes por todo o mundo.
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    Aguardo contato. (via email ou msn)

    Marina Cardoso – Óbvio&Atual
    Blog: http://www.obvioeatual.com
    MSN: obvioeatual@hotmail.com

  2. There are some grounds for the pessimistic scenario. While discussing this option, the right also debating the introduction of an oath of loyalty like in the US and other symbolic things that would make prospective Palestinian citizens feel rather unwelcome. So by the time the idea gets on the negotiation table, the conditions will already be unpleasant (although not directly discriminating) to Palestinians. When/if their leadership rejects the plan, Israeli right will be happy to claim they are the ‘good guys’ who want peace.
    One of my favorite professors, Dan Rabinowitz, used to say that he believes in a one-state solution in the long run, but a two-state solution is needed as a transition stage. What he meant, as I understand, is that the two sides have to stand on equal grounds before they make a federation or anything (btw, thinking about the future, in order to keep a federal govt and avoid the demographic pressures, Israel would have to get a constitution – and this would be a huge change in its political system).
    In any case, if a one-state solution gets through, the beach which will feel any change will be the Hilton beach, and I’ll be more than happy for all Palestinian homosexuals who are now confined to the closet. They will be the ones actually enjoying the beach and the ice-cream – together with the hot Jewish gays and the tomboyish lesbians of Tel Aviv :)


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