Helicópteros e os acidentes

27jul10

Acordei hoje, ainda antes do café, com a notícia estampada no jornal, ao lado de uma foto do mês passado com o Obama e o Abbas:

Six Israeli airmen missing after helicopter crashes in Romania

Imediatamente, vendo a foto das montanhas onde o acidente ocorreu, e o infográfico mostrando o ponto entre a Moldóvia e Brasov, na Romênia, lembrei-me de She’ar Yashuv, o local no norte de Israel onde me hospedei durante a Segunda Guerra do Líbano, em 2006, para fazer a cobertura para a Radio France Internationale (RFI), de quem eu era correspondente na época.

O local ficou famoso porque em fevereiro de 1997 um acidente com dois helicópteros – do mesmo tipo do que colidiu com a montanha romena – matou nada menos que 73 militares israelenses que voavam a caminho do sul do Líbano. Vale lembrar que Israel ainda ocupava a região, como fez até maio de 2000.

Depois da lembrança, me passou pela cabeça uma pergunta: Por que helicópteros israelenses (eram dois no momento do acidente, e a tripulação do segundo relatou hoje como foi a queda) estavam em treinamento tão longe de Israel? E pensei até que o presidente Peres, que estava na região ontem, poderia estar nesse helicóptero. Relembrando: li a notícia antes do café. Minha pergunta foi repetida e respondida pelo Haaretz.

A sociedade israelense tem as suas feridas – como o Ron Arad dos soldados sequestrados e desaparecidos. O acidente de She’ar Yashuv (comemorado no Líbano) é a ferida dos desastres com helicópteros. Era época de guerra – ou de confrontos. Antes de sequer cruzar a fronteira, os helicópteros se chocaram e caíram, matando os 73 militares. Há no local um monumento em memória aos mortos.

A ferida foi reaberta hoje com a notícia do desaparecimento dos militares na Romênia – e depois a confirmação de que os sete tripulantes estavam mortos. Homens entre 24 e 48 anos. Reservistas e soldados em serviço regular. De tenente-coronel a majores. Todos mortos.

O Yasur (ou CH-53, como os fabricantes norte-americanos chamam o helicóptero) caiu porque, de acordo com as investigações, “não havia visibilidade” (WTF?) A ficha do helicóptero inclui outros acidentes – além do de 1997 em She’ar Yashuv e do de hoje – mas também sucessos para o Exército israelense.

No lado positivo, em uma operação em 1969 dois helicópteros Yasur apreenderam e trouxeram para Israel um radar egípcio. Cairo e Jerusalém ainda não mantinham relações diplomáticas, vale lembrar. Há ainda a história de um sujeito que sobreviveu depois que o Yasur em que voava explodiu no ar, em agosto de 1973, meses antes da guerra de Yom Kipur.

No lado negativo, outros 54 militares, todos paraquedistas, morreram quando um Yasur caiu sobre Jericó, na Cisjordânia. O acidente aconteceu duas décadas antes de She’ar Yashuv, em 1977. Três anos antes, oito soldados morreram quando um Yasur pousou sobre outro, que já estava no solo. A lista não para por aí…

Acidentes acontecem. Como escreve Amos Harel em sua coluna de hoje no Haaretz, Acidentes vão acontecer, repetindo o nome da música de Elvis Costello. Harel lembra que o acidente na Romênia é o mais sério desde o de 1997. E menciona o que já virou fato, durante o dia:

Nos próximos dias, haverá grandes esforços na Romênia para encontrar os corpos dos soldados mortos e investigar as causas do acidente.

Por enquanto, em luto, ninguém fala de custos. Israel, vira e mexe, se transforma de novo naquela grande família judaica. Um colega meu, grande jornalista, escreveu hoje de manhã no perfil dele no Facebook:

Hate mornings when I have to cover pressers about fallen pilots. And then write the obit about it. Hate.



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