Mudança de cultura

08ago10

Foto: Ilan Asayag/ HaaretzFaz quatro anos que funciona, em Israel, um serviço chamado em hebraico Kavei Layla (Linhas Noturnas). São ônibus que rodam nas cidades nos horários em que a maioria das linhas já deixou de circular. O objetivo principal da iniciativa, que tem página no Facebook, é dar uma alternativa aos jovens que saem de casa com o carro dos pais, bebem e acabam provocando acidentes. Não são poucos casos.

Como já comentei várias vezes*, acidentes em Israel são um problema sério. Mais pessoas morreram em batidas e atropelamentos do que durante a Segunda Intifada, entre 2000 e 2003 – por exemplo. Os números são inaceitáveis, horrendos. E a lei não é séria como deveria para lidar com o assunto. Alternativas-tampão, como as linhas noturnas, são criadas, mas não são a verdadeira solução.

*Leia, de abril, Campanha da vez, post meu aqui no blog sobre uma campanha para combater a mistura perigosa de álcool e volante, e Olhe para os dois lados, post de outubro de 2008 sobre um acidente causado pela distração da polícia.

Na quinta passada um acidente grave envolvendo um mini-ônibus e um trem no sul do país matou sete pessoas de uma mesma família. Pelo que já se apurou, o motorista do veículo ultrapassou o bloqueio da linha do trem – muito bem sinalizado – e parou sobre os trilhos. Segundos depois, houve o choque, e o carro, destruído (foto), foi lançado a metros de distância.

Há duas ou três semanas o Canal 10 começou uma campanha com um programa chamado Shetach Sterili (Zona Estéril). Criaram em Ashdod, na costa sul de Israel, um perímetro em que foram instaladas câmeras, policiais de trânsito foram alocados e muitos motoristas foram parados. No programa, os apresentadores mostram os israelenses sendo parados e inventando desculpas para não levar multas…

A cultura do jeitinho – tão comum no nosso Brasil – é normal por aqui, também. Israelenses sabem que não podem levar a pior, e sempre arrumam desculpas – às vezes esfarrapadas – para se livrar de punições, seja fumando em um bar fechado, seja ultrapassando a velocidade máxima permitida ou falando ao celular no volante. Resolver o problema dos acidentes tem que começar por mudar essa cultura. E isso leva tempo e leva vidas.

Hoje o Haaretz publicou, em sua sessão de features, um texto autoral de Yossi Klein sobre as linhas noturnas na região central de Tel Aviv. Como ele mostra em um trecho da matéria, na realidade poucos jovens usam os ônibus. O motorista com quem Klein conversou diz, ao contar quem são os passageiros da linha 405, que ele dirige:

Os jovens se afogam no álcool e depois dirigem os carros dos pais.

Para quem quiser, deixo a matéria de Klein, Night moves, e a tradução do Google. Para dar um gostinho, deixo também um trecho do texto, no inglês original:

The 405 pulls in at 1 A.M., and I’m invited to board. The driver is Jackie Levant. He’s short and bespectacled, with sparse hair and a projecting jaw. He is deferential, aware of the weight of responsibility on my shoulders. He knows how to deal with the media; just yesterday he showed his route to hizzoner the deputy mayor. He chooses his words carefully in an attempt to be officious, authoritative. He’s been a bus driver for nine years.

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2 Responses to “Mudança de cultura”

  1. Hmmm, here it’s very much a part of the ‘macho culture’, and it’s very difficult to change. I remember my classmates getting awfully drunk and going ‘on a drag’ – it was a matter of courage, masculinity and respect from others. As long as Hollywood continues producing movies such as “Fast and furious”, where tricking the cops and breaking rules with your car = cool, young guys will never be immune to that stupidity.
    On the other hand, I’ve heard of a very concrete measure of how this culture can be changed. A famous basketball player’s wife, living in the US, quite used to immunity due to her status, was driving drunk. The police stopped her, she had to pay a fine, but in addition to that she had to attend compulsory ‘rehab’ until she was allowed to drive again. During that she would have to meet and talk to family members of people who were killed by drunk drivers. I think it’s effective. It shows the offender that it’s not “me against the cops”, but “me against regular people who don’t want to die”.

    • Daiva, you are totally right. You know… In the same Channel 10 there is a TV ad for Bezeq (an Israeli phone and communications company) that shows the character – a cute bird – driving fast on a main road. Then it shows a huge traffic jam just in front of it, its amazed face… Instead of slowing down, the bird accelerates to the maximum, because it has “NGN, the private ‘lane'”, and it can drive as fast as it wants. The message is not right. It shows that is fun and right to drive fast. It may be, but it’s not safe. But, of course, Channel 10 would never ask Bezeq to change the message on its ads. And changing the culture becomes harder and harder…

      I really believe that measures like the one you mentioned can help. I recall when I was around 18 and lived on a very nice neighborhood in Sao Paulo. It was safe – much safer than any other place in the city. But as lots of healthy families were living there, police had virtually no control. And parents would let their underage kids drive their cars. We had very bad statistics on traffic accidents. So voluntarily I started taking pictures of the accidents myself – usually holding my press card to gain access – and print and distribute flyers with messages like “Your kid can be involved in the next accident. Don’t let kinds under 18 drive your cars”. It had some effect.

      In a country as Israel the problem is deeper. You have to change the whole culture. You have to make more difficult for new drivers to get a license. You need to punish whoever drives dangerously with serious punishments. You need to put in jail people who kill because they are drunk or because they decided just not to have their friends using a helmet. You need to declare war against whoever poses a danger to other people. But here, with other serious problems, it’s hard to bring attention to this issue…


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