Os filhos dos outros

15ago10

Imagem: Erez Rainman

Um dos grandes debates na sociedade israelense ganhou força nas últimas semanas com a aprovação de uma lei de deportação de filhos de trabalhadores estrangeiros no país. A lei prevê que das 1,2 mil crianças nessa categoria, apenas 800 poderiam ficar: aquelas que têm menos de cinco anos, estudam em escolas locais e falam hebraico. As outras seriam deportadas, com os pais.

Logo depois da decisão, o ex-ministro da Educação Yossi Sarid declarou:

Se alguém de vocês conhece alguma criança candidata à deportação, leve-a para sua casa, esconda-a… Talvez você não consiga evitar a maldade, mas é assim que seres humanos supostamente devem agir. Há alguns anos, pessoas assim se tornaram Justos entre as Nações.

Justificando a lei, o ministro de Interior de Israel, Eli Yishai, um judeu ultraortodoxo do partido Shas, disse que os trabalhadores estrangeiros representam “um perigo para o empreendimento sionista” de Israel. Recebeu críticas duras. O discurso dele no Parlamento foi taxado de racista e primitivo. Um deputado do Meretz, de esquerda, lembrou, em resposta:

As crianças que você deseja expulsar servem no Exército mais que os seus filhos (em referência aos filhos dos ortodoxos, isentos)

No Facebook, um grupo reúne pessoas com o mote: “Eu também topo pagar mil dólares para que Yishai deixe Israel“.

O tema é complexo e precisa de uma explicação-adendo: até antes da intifada muitos árabes da Faixa de Gaza e da Cisjordânia tinham acesso a Israel e podiam trabalhar aqui. Depois que o governo fechou as portas para eles, encontrou um problema: quem faria aqueles trabalhos que, até então, só os árabes realizavam?

Em uma política não muito clara de permitir (ou fechar os olhos para) a entrada de trabalhadores estrageiros (da tradução literal do hebraico ovdim zarim), o número de tailandeses, filipinos, chineses e africanos, em geral, aumentou. Hoje fala-se em 200 mil trabalhadores estrangeiros, em uma população de 7,5 milhões. Metade deles, dizem as estatísticas, não tem papelada em dia.

A reviravolta no debate ocorreu durante o fim de semana. No sábado houve uma manifestação em Tel Aviv contra a deportação das crianças, que não conhecem outro país e falam hebraico tão bem quanto qualquer outro israelense porque é o único idioma que conhecem. No protesto, a mulher do ex-premiê Ehud Olmert, Eliza, se juntou às crianças e disse esperar que o governo mude de posição.

Mas a verdadeira reviravolta ocorreu quando a mulher do premiê Bibi Netanyahu, Sara, escreveu, em uma carta ao ministro Yishai:

Como psicóloga e mãe de dois filhos, imploro que usem sua autoridade para permitir que a maioria das 400 crianças possa ficar em Israel

Os dois devem se encontrar esta semana para conversar a respeito, e espera-se que isso possa mudar algo na decisão. É uma visão otimista, porque Yishai já disse que não vai mudar de posição. Em resposta à carta da mulher do premiê, Yishai retomou as palavras do discurso no Parlamento, dizendo que alguns dos trabalhadores ilegais trouxeram seus filhos ou tiveram filhos em Israel acreditando “que se eles tiverem um filho, eles vão ganhar um visto”. E completou:

A viagem de férias acabou. Quem quer que esteja aqui ilegalmente deve voltar a seu país.

O que surpreende é o fato de que Sara vai contra uma decisão já aprovada pelo gabinete do próprio marido. Há duas semanas, quando a lei foi aprovada, Netanyahu disse:

Não queremos criar um incentivo para a entrada de centenas de milhares de trabalhadores ilegais.

Isso, contudo, não responde: o que será feito com as crianças dos outros?

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One Response to “Os filhos dos outros”

  1. Japan had exactly the same issue. But the compensation is much higher (of course), and it includes Latinos who in Israel would be considered ‘olim’, or identity migrants (i.e. with some exceptions, the main source of legal guest-workers is the pool of persons of Japanese origin in Latin American countries. Brazil is top 4 source of migrants after Korea, China and the Philippines). There was a case when a Filipina pupil chose to stay in Japan when her parents were deported, because she didn’t know the country of her parents origin and did not speak the language properly. It allowed people to pay attention to how inhumane such policies can be, splitting families and making people live in fear. The methods in which migration police operates in Israel and Japan are very similar: racial profiling, harassing in public spaces, and… more racial profiling.

    There’s more to Israeli policy, however, – the govt is planning to criminalize those who help illegal immigrants, including international volunteers like I was, who help them learn Hebrew and solve basic logistical problems.

    See, Yuval B-A is also angry about that: http://yuvalbenami.blogspot.com/2010/08/city-with-no-mongolian-waitresses.html

    I think it’s ironic how religious parties think that 1200 kids are a bigger threat to the Jewish character of the state than their own policies which make the country not so pleasant for Jews to live, too: imposing religious laws, failing to address housing issues faced by elderly olim, ethnic profiling and nonrecognition of their heritage (Ethiopians, Russians to some extent), etc etc.


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