Pedras em Mea Shearim

06set10

Aviso em Mea ShearimEstive hoje em Jerusalém, caminhando pela cidade com a equipe do programa Classe Turista, que vai inaugurar na Band em novembro (fiquem antenados!) Mostrei pra eles a tenda do Gilad Shalit, onde os pais dele estavam, passamos pela praça Paris, onde as maiores manifestações, tanto de esquerda como de direita são realizadas, caminhamos para a Cidade Velha e tomamos um ônibus – sim, um ônibus! – para Mea Shearim, o bairro ultraortodoxo que parou no tempo.

Quando descemos do ônibus, na rua Strauss, os olhares começaram. Entendo que eu estava entrando em um universo que não é o meu. Apesar de nenhum de nós estar vestido de forma não modesta – apenas colorida – minha sensação foi de ser um ET: muita gente olhando e torcendo o nariz, nas ruas estreitas cercadas de paredes de pedras. De repente, enquanto caminhávamos e eu contava algo sobre o bairro, um doido começou a gritar que nós não íamos entrar.

Cheguei a tentar conversar com ele e perguntar por quê. Mas ele só dizia que não, que ia destruir a câmera e que não poderia deixar a gente entrar. Gritava do meio da rua, depois de eu dizer a ele que estamos em um país livre e ele não pode decidir onde posso ou não posso andar. De repente, uma cena ainda mais bizarra: duas crianças, com menos de oito anos, vieram dar reforço – a ele…

Você não pode entrar. Nós não podemos deixar. Você vai ser apedrejado.

Disse a eles que ia correr o risco. Confesso que fiquei tenso, mas resolvi continuar depois que um outro religioso veio falar conosco e explicou que o sujeito era um maluco, que não teria problema nenhum e que estávamos vestidos como mandam as regras do bairro. Além dele, duas mulheres em uma mercearia me tranquilizaram: “No máximo as pessoas não vão querer aparecer, e vão esconder o rosto com as mãos”, uma delas me disse.

Pois seguimos para dentro de Mea Shearim. O bairro nasceu no final do século 19 e foi construído para judeus ultraortodoxos da Polônia e Lituânia. Até a metade do século passado, seis portões eram fechados à noite para isolar o bairro do resto da cidade. Os portões não existem mais, mas psicologicamente os habitantes vivem em uma redoma.

Seguimos pelas ruas descuidadas e cheias de gente. Os olhares continuavam, mas ninguém dizia nada. O mesmo sujeito do começo da história nos acompanhava de longe. De repente ele sumiu em um beco e nós continuamos a gravar. Só soubemos que ele ainda estava lá quando ele atirou uma pedra e começou a gritar de novo. A pedra não atingiu ninguém, mas assustou.

Saímos de Mea Shearim, mostramos a pedra – que pelo tamanho poderia ter machucado alguém ou atingido a câmera.

O fundamentalismo assusta, vindo do lado que vier.



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