Os filhos (árabes) dos outros

06out10

Richard Goldstone em Gaza (foto: AP)O assunto gerou pouca repercussão no mundo, mas foi bastante destacado por aqui. Durante a Operação Chumbo Derretido, a guerra entre Israel e o Hamas de dezembro de 2008 a janeiro de 2009, dois soldados de uma unidade de elite, Golani, usaram um garoto palestino de nove anos como escudo humano.

A história é a seguinte: no meio dos confrontos, em Gaza, eles teriam mandado o garoto abrir sacolas em que eles suspeitavam haver bombas. Preferiram arriscar a vida de uma criança a abrir as sacolas eles mesmos. Não havia bomba nenhuma nas sacolas. Mas por conta da atitude, os soldados foram condenados por uma corte militar em Israel.

Mais do que o incidente em si, o debate gerado em seguida na sociedade é de assustar. Na corte que condenou os Golani, amigos dos soldados – e eles mesmos – usavam camisetas com os dizeres “Somos vítimas de Goldstone”, em referência ao jurista da ONU (na foto) que investigou o papel do Exército israelense na operação em Gaza e acusou o país de crimes de guerra.

Ouvi ontem, na Galei Tzahal, rádio oficial do Exército, duas mães de soldados mortos na Segunda Guerra do Líbano. Uma delas, feroz, dizia que o filho dela faria a mesma coisa se estivesse no lugar dos Golani, em Gaza. Mais: com todo o apoio dela. “Estamos lidando com terroristas, filhos e netos de terroristas”, dizia.

A outra, contudo, mais calma, dizia que o filho dela, ao contrário, teria feito de tudo para recusar as ordens de usar o garoto e colocá-lo em perigo. “Meu filho tinha valores e não arriscaria a vida de uma criança”, contou. O debate é desnecssário, baseado em “ses”. Mesmo assim, assusta.

No dia anterior, quando a notícia foi divulgada, um soldado de alta patente entrevistado também na Galei Tzahal disse ao vivo que faria exatamente como os Golani, levando a apresentadora a gaguejar, incrédula, e a voltar a perguntar algumas vezes se era aquilo mesmo.

Só consigo, agora, me lembrar de uma frase, atribuída à ex-premiê Golda Meir, quando falava sobre a dificuldade de construir confiança e paz com os árabes, que mandam os filhos para a guerra. Faço questão de citar a frase dela. Pena ela não servir nas duas direções.

A paz virá apenas quando os árabes conseguirem amar os próprios filhos mais do que eles nos odeiam

(UPDATE) Ainda na onda de abusos e excessos de militares israelenses, um vídeo que está sendo muito comentado e criticado, também aqui em Israel, mostra um soldado dançando ao redor de uma palestina vendada e amarrada, no mesmo estilo das fotos divulgadas no Facebook pela ex-soldada Eden Abergil em agosto.

Embora esta não seja a prática padrão de soldados israelenses, cenas assim estão se fazendo mais comuns e conhecidas, graças às redes sociais e à falta de bom senso de alguns soldados – que não apenas abusam ao humilhar palestinos amarrados e vendados, como também erram ao publicar fotos e vídeos.



8 Responses to “Os filhos (árabes) dos outros”

  1. Olá a todos,

    Toda essa discussão é ótima e fez a diferença para avaliar como se comportam os dois lados:

    Na sociedade Israelense isso é discutido e até punido.
    Mas as barbaridades cometidas pelos árabes radicais nunca são discutidas em seus meios civis, muito menos nos meios militares.

    Sem contar que a mídia mundial normalmente não condena o uso de crianças e mulheres civis como armas suicidas ou escudos humanos pelos terroristas e seus líderes, estes sim são os verdadeiros covardes.

    A questão principal do tal fato ter acontecido é que realmente até as crianças Palestinas são usadas constantemente, como portadores de bombas e até armadas, em atos suicidadas contra militares Israelense; isso é um fato já demonstrado inúmeras vezes. Portanto, existe sim o medo da parte dos soldados, afinal heróis mortos deixam somente o nome para a eternidade, não encontram 100 virgens e riquezas no Céu de Alá. Soldados mortos deixam eternamente a sensação amarga de perda irreparável para a nossa sociedade e familiares.

    Eu sempre digo ao meu filho; não tente ser um herói. Na dúvida, a sua vida e a de seus companheiros estão em primeiro lugar. O terror árabe não hesita em usar crianças e mulheres, ou o que quer que seja, para matar nossos soldados.

  2. É assustador ver como a guerra transforma pessoas comuns (sim, os soldados em questão também são gente) em seres capazes de tamanha crueldade!

  3. 3 Maria Leticia

    Não reparei, Gabriel Toueg. Mas, as vezes, esqueço que você escreve para judeus e israelenses (inseridos no teu universo) e não para mim (no sentido de outros fora), leiga que jamais saberia, pela midia, de tantos detalhes relevantes. Te agradeço Gabo, por explicar mais uma vez! Principalmente teu ponto de vista.

    • Maria Leticia, eu não escrevo para judeue e muito menos para israelenses. Se esse fosse meu desejo, meu blog seria em hebraico, ou ao menos em inglês. Escrevo para brasileiros, judeus e não-judeus, que para mim são o que são, na mesma medida: brasileiros, seres humanos, iguais. Não escrevo para o “meu universo”. Meu objetivo é esclarecer, ampliar horizontes. Ficar no “meu universo” não me permitiria isso. E você não é leiga – sabe bastante sobre o Oriente Médio, como já provou antes.

  4. 5 Andrea Anatole

    No Brasil tem uma piadinha maldosa que explica bem o que você quis resaltar, ela começa assim: Voce sabe a diferença entre um viado e um homosexual? o homosexual é o meu filho, viado é o filhos dos outros. A diferença é o amor, mas todos são filhos.

    Apesar de tudo isso podemos escolher que atitude teremos, esta escolha é realmente muito importante, porque vai definir quem somos.

    … Pode-se tirar tudo de um homem exceto uma coisa: a última das liberdades humanas – escolher a própria atitude em qualquer circunstância, escolher o próprio caminho.(Viktor Emil Frank)

  5. 6 Maria Leticia

    a paz está SEMPRE na mãos dos árabes… achei esta frase, além de unilateral e rasa, absolutamente preconceituosa e generalista. uma pena. um retrato.

    • O que você não reparou, Maria Leticia, é a ironia da frase, diante do debate que se seguiu à condenação dos dois soldados. A Golda Meir, que era de esquerda, de uma coligação de partidos que inclui o atual Partido Trabalhista (Avodá), tinha razão. Os árabes precisavam amar os próprios filhos – em vez de mandá-los à guerra e, mais recentemente, para se explodir em ataques suicidas. Mas meu ponto neste post não foi este. Eu quis dizer que a frase da Golda Meir, uma das mais importantes políticas do Estado de Israel, serve completamente no sentido contrário, nesta situação. Quando se trata dos filhos dos outros, tudo bem? Essa mãe que disse que apoiaria se o filho dela fizesse o que os Golani fizeram deveria conhecer a frase da ex-premiê e aprender a amar o ser humano – em vez de dizer que apoia o que eles fizeram. Ela precisava que alguém lhe dissesse que “a paz virá apenas quando nós amarmos os filhos deles tanto quanto amamos nossos próprios filhos”.


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